Sanções dos Estados Unidos contra o Tribunal Penal Internacional geram revolta e críticas da ONU

Marcelo Borges
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Foto: Divulgação / Foto: Adriana Victorino

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos classificou como “inaceitáveis” as sanções anunciadas pelos Estados Unidos nesta sexta-feira, 9, contra o Tribunal Penal Internacional (TPI). A própria corte também condenou duramente a decisão norte-americana, afirmando categoricamente que as medidas restritivas representam uma tentativa direta e sem precedentes de impedir seu funcionamento regular no cenário global.

O anúncio dessas penalidades ocorreu poucas horas depois de a jurista sul-africana Navi Pillay receber o prestigioso Prêmio Nobel da Paz, com reconhecimento internacional fundamentado, entre outros motivos, por sua trajetória de atuação na defesa da instituição e dos direitos fundamentais.

Enquanto a premiação foi amplamente celebrada pela Autoridade Palestina — que destacou a relevância histórica de Pillay na salvaguarda do direito internacional —, o governo de Israel manifestou forte oposição à honraria concedida à jurista.

Em pronunciamento oficial distribuído por meio de comunicado, o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, pontuou que as restrições econômicas e diplomáticas fazem parte de uma escalada de ações de retaliação direcionadas contra o tribunal e seus integrantes, penalizados pelo rigoroso trabalho de investigação e apuração de violações graves de direitos humanos ao redor do planeta.

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“Estas sanções — as mais recentes de uma série de medidas de retaliação contra o TPI e sua equipe pelo trabalho que realizam diariamente para promover a responsabilização pelas violações mais graves dos direitos humanos — são inaceitáveis”, declarou enfaticamente o representante máximo dos direitos humanos na Organização das Nações Unidas.

As penalidades foram oficializadas pelo Departamento de Estado americano, que não escondeu o propósito de paralisar a capacidade operacional da corte internacional. A ofensiva diplomática e econômica de Washington intensificou-se desde fevereiro de 2025, período em que metade dos 18 magistrados que compõem o TPI, além de outros funcionários estratégicos, passou a ser alvo de restrições norte-americanas.

Essa postura dos Estados Unidos ganhou força após a emissão, no decorrer de 2024, de um mandado de prisão por parte do tribunal contra o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu. A ordem judicial fundamentou-se em acusações de supostos crimes contra a humanidade cometidos no contexto do conflito na Faixa de Gaza.

Tribunal denuncia tentativa de interferência e cerceamento

Diante do cenário adverso, o TPI emitiu uma resposta firme, rejeitando as novas sanções e classificando a investida como uma investida sem precedentes na história da instituição. Fundamentado por um tratado internacional e composto atualmente por 125 Estados-membros, o tribunal atua como a mais alta instância global para processar e julgar indivíduos acusados de genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e o crime de agressão.

Na avaliação da corte, as barreiras impostas pelos Estados Unidos têm o claro intuito de comprometer a eficiência de suas operações correntes, além de tentar intimidar servidores, testemunhas e colaboradores que participam ativamente das investigações em curso.

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A direção do órgão judiciário interpretou o ato de Washington como um atentado direto ao Estado de Direito e aos pilares fundamentais que sustentam o sistema jurídico global. Contudo, em meio às pressões externas, a presidente do TPI, Tomoko Akane, garantiu que a instituição permanecerá firme no cumprimento de suas atribuições estatutárias.

“O Tribunal continuará a cumprir integralmente seu mandato, com independência e imparcialidade, agindo apenas com base na lei e nas provas, em benefício das inúmeras vítimas de crimes graves”, pontuou a presidente em nota oficial.

Como desdobramento da crise, a corte apelou para que todas as nações signatárias do Estatuto de Roma — o tratado constitutivo do tribunal — se mobilizem e adotem medidas práticas e enérgicas para assegurar a continuidade ininterrupta das investigações e julgamentos.

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Para a instituição, o esforço em defesa do tribunal transcende a preservação de uma sigla corporativa; trata-se de salvaguardar um modelo global fundamentado na premissa inegociável de que nenhum indivíduo, por mais poderoso que seja, está acima da lei.

ONU cobra revogação imediata das medidas punitivas

Reforçando o coro de reprovação às sanções, Volker Türk apelou para que a comunidade internacional se una e crie barreiras contra qualquer tentativa de intimidação direcionada a profissionais que dedicam suas carreiras a apurar crimes de repercussão internacional.

O alto comissário também dirigiu apelos específicos a governos que optaram por não integrar o Estatuto de Roma, como é o caso dos Estados Unidos, exigindo que essas potências mantenham o respeito institucional à autonomia e à soberania operacional da corte.

“Está amplamente demonstrado, em todos os conflitos e crises que assolam o nosso mundo, que a impunidade alimenta a violência e o sofrimento”, argumentou o diplomata durante sua manifestação pública.

Por fim, Türk reiterou a necessidade urgente de revogação integral de todas as sanções aplicadas contra o tribunal e seus servidores, defendendo um incremento expressivo nos investimentos globais destinados à investigação e à responsabilização de agentes envolvidos em violações graves aos direitos humanos.

Fonte:: estadao.com.br

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