Mesmo sete décadas após a sua publicação original, a obra-prima Grande Sertão: Veredas, escrita pelo renomado autor João Guimarães Rosa, permanece como um dos monumentos mais imponentes e desafiadores da literatura em língua portuguesa. O livro, que narra as memórias e reflexões do ex-jagunço Riobaldo no sertão brasileiro, continua a exercer um fascínio profundo, ao mesmo tempo em que intimida leitores, acadêmicos e profissionais dedicados ao universo dos livros.
Uma prova dessa complexidade veio a público recentemente através do relato do poeta e crítico literário Ítalo Moriconi. Com uma trajetória de mais de quatro décadas dedicadas ao ensino universitário e à crítica literária, Moriconi confessou publicamente que apenas em tempos recentes encarou a leitura integral e definitiva do romance. Essa imersão profunda e tardia acabou por gerar frutos acadêmicos e literários, materializando-se na criação do livro Para Ler Grande Sertão: Veredas, uma obra que busca desatar alguns dos nós textuais e narrativos propostos por Guimarães Rosa.
O reflexo dessa experiência literária e o processo de decodificação do clássico serão os grandes motes de uma apresentação especial durante o Festival da Palavra, evento cultural de destaque que ocorre em Curitiba. A participação de Ítalo Moriconi na programação propõe aproximar o público geral e os leitores mais ávidos da densa estrutura criada por Guimarães Rosa.
Em entrevista concedida aos jornalistas Ayrton Baptista Junior e Grasiani Jacomini durante a programação do rádio local, Ítalo Moriconi detalhou os bastidores da própria hesitação em relação ao livro. O crítico admitiu que adiou o mergulho completo na narrativa durante muitos anos. Entre os motivos para o prolongado afastamento estavam a extensão física do volume e a falsa impressão de que a força cultural do romance — amplamente difundida no imaginário brasileiro — dispensava a leitura direta das páginas. No entanto, ao romper a barreira e concluir a empreitada, a sensação de descobrimento foi tamanha que o motivou a estruturar um guia prático para auxiliar outros leitores a superarem o temor reverencial que o clássico costuma inspirar.
Para o crítico, a jornada através das páginas de Grande Sertão: Veredas assemelha-se a uma travessia geográfica e psicológica pelos rincões do Brasil profundo. Ele aponta que uma das características mais marcantes da experiência é o impulso quase imediato que muitos leitores sentem ao fechar a última página: o desejo incoercível de reiniciar a leitura imediatamente, agora com novos olhos e maior compreensão do universo peculiar construído pelo autor mineiro.
A programação do Festival da Palavra reservou para o domingo, às 14h30, na Cinemateca de Curitiba, o painel encabeçado por Ítalo Moriconi. Além da análise aprofundada sobre os aspectos estilísticos, linguísticos e temáticos do romance de Guimarães Rosa, o encontro prevê um debate enriquecedor acerca das transposições audiovisuais e das adaptações cinematográficas já realizadas a partir da saga de Riobaldo e Diadorim.
Fonte:: cbncuritiba.com.br


