O Vasco da Gama tenta articular nos bastidores a liberação de São Januário para sediar o confronto decisivo contra o Boca Juniors, válido pela semifinal da Copa Sul-Americana. A situação atual vivida pelo clube carioca lembra o drama enfrentado pelo Athletico há mais de duas décadas, quando o Furacão buscou alternativas para mandar a final da Copa Libertadores em sua própria casa.
O duelo de ida está agendado para o Estádio La Bombonera, em Buenos Aires, no dia 13 de outubro, uma terça-feira, às 21h30. No entanto, a partida de volta, marcada para a semana seguinte no mesmo horário, segue sem um local definido devido às exigências da Conmebol.
O regulamento da entidade sul-americana estabelece uma capacidade mínima de 30 mil torcedores para palcos de partidas semifinais. Atualmente, São Januário comporta cerca de 20 mil pessoas, o que gerou um obstáculo significativo para a diretoria do Cruz-Maltino.
Diante desse cenário, o presidente vascaíno, Pedrinho, tenta negociar uma flexibilização das normas com a entidade. Em entrevista recente, o dirigente afirmou que esgotará todas as possibilidades para que o confronto ocorra em reduto cruz-maltino. Entre os planos da diretoria está uma ampliação provisória na capacidade do estádio para 24.155 lugares, patamar que atenderia à exigência de reservar quatro mil ingressos para a torcida visitante.
“A minha prioridade de mando é em São Januário, independentemente de serem quatro mil torcedores do Boca. A segunda opção é o Maracanã. Se eu tiver a possibilidade de negativa de São Januário, eu vou judicializar o Maracanã. A última opção é o Nilton Santos, que sempre nos atendeu muito bem. Eu tenho zero receio de ter quatro mil torcedores do Boca”, declarou o mandatário.

Athletico viveu impasse semelhante em 2005 e bateu de frente com a Conmebol
A empreitada vascaína remete diretamente ao que aconteceu com o Athletico em 2005. Naquela temporada, o clube paranaense não obteve autorização da Conmebol para mandar o segundo jogo da final da Libertadores na Arena da Baixada, cujo limite exigido na época era de 40 mil lugares.
Apesar de manter um bom relacionamento com a cúpula da entidade, o Furacão acabou superado nos bastidores pelo São Paulo, que já ostentava dois títulos continentais e fez valer o rigor do regulamento.
“O São Paulo estava na dele. Foi lá e exigiu da Conmebol: ‘olha, o regulamento diz isso’. E pelo acesso que tinha, foi ouvido. Não imaginávamos que houvesse tamanha pressão para que a Conmebol voltasse atrás no que tinha dito sobre nosso estádio – e havia muitos precedentes de finais em locais com menos de 40 mil lugares. Então, a partir daí foi aquele corre-corre”, relembrou o ex-presidente athleticano, João Augusto Fleury, em entrevista concedida em 2020.
A movimentação política do clube paranaense envolveu diversas autoridades da época, incluindo o então governador Roberto Requião, o presidente em exercício da CBF, Nabi Abi Chedid, e o dirigente da Federação Paranaense de Futebol, Onaireves Moura. Fleury chegou a viajar para Assunção duas vezes em menos de sete dias, mas as tentativas diplomáticas não surtiram efeito.
O plano de contingência para utilizar o Estádio Couto Pereira também fracassou. Na ocasião, o presidente alviverde da época, Giovani Gionédis, enviou um comunicado formal à entidade sul-americana declarando o clube impedido de receber o evento, sob a mesma justificativa de limitação de público.
“Ninguém perguntou nada para o Giovani, que deveria estar desagradado com o Petraglia e pressionado pela própria torcida, então resolveu fazer isso”, apontou Fleury.
Enquanto centenas de torcedores formavam filas quilométricas nos arredores da Arena da Baixada na esperança de adquirir ingressos, a Conmebol emitiu um comunicado oficial definindo o Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, como sede do embate decisivo.
Arquibancadas tubulares erguidas na reta final
Mesmo diante da negativa oficial da entidade, a diretoria rubro-negra seguiu irredutível e investiu na instalação de arquibancadas tubulares para viabilizar a partida em Curitiba. O custo total da estrutura alcançou R$ 1,5 milhão, com metade do valor pago de forma antecipada. A obra foi concluída a apenas dois dias do primeiro compromisso da final, amparada por um alvará de liberação emitido pelo Corpo de Bombeiros. Contudo, a decisão da Conmebol permaneceu inalterada.
“Logo depois de conseguirmos o aval dos bombeiros, me entregam um celular. Era o secretário-executivo Francisco Figueiredo dizendo que o jogo seria em Porto Alegre e que só estava me ligando por cortesia”, relatou o ex-dirigente do Athletico.
Desfecho em campo e a contenda com o São Paulo
Sem poder contar com o mando em sua praça esportiva, o Athletico empatou por 1 a 1 com o São Paulo no Beira-Rio. O centroavante Aloísio Chulapa abriu o placar para os paranaenses no primeiro tempo, mas o zagueiro Durval marcou contra e igualou o marcador.
No confronto de volta, disputado no Estádio do Morumbi, o time paulista sacramentou a conquista com uma goleada por 4 a 0. O rumo da partida, no entanto, foi selado ainda na etapa inicial, quando o meia Fabrício desperdiçou uma cobrança de pênalti ao acertar a trave após o São Paulo abrir vantagem com o atacante Amoroso. No segundo tempo, a equipe são-paulina ampliou com gols de Fabão, Luizão e do jovem Diego Tardelli.

Marco Aurélio Cunha, que atuava como superintendente de futebol do clube paulista naquele ano, relembrou o episódio e ironizou a estrutura montada pelo Furacão, apelidando as arquibancadas temporárias de “puxadinho”. Para o dirigente são-paulino, a diretoria paranaense deveria ter antecipado as obras estruturais desde as fases anteriores da competição.
“Porque perderam o jogo. Perderam a final de 4 a 0. E isso é bem pesado… O São Paulo não usou força política, usou a força do regulamento. E se impôs”, concluiu.
A relação com a cúpula da Conmebol na época
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A cúpula da entidade sul-americana era liderada na época pelo paraguaio Nicolás Leoz. Meses antes de o Athletico alcançar a decisão continental, o dirigente recebeu o título de cidadão honorário da Câmara Municipal de Curitiba em uma cerimônia prestigiada por lideranças do clube, incluindo Mario Celso Petraglia e João Augusto Fleury da Rocha.
Na ocasião, Leoz elogiou publicamente as instalações da Arena da Baixada e do Centro de Treinamento do Caju, gerando uma expectativa favorável na diretoria athleticana quanto ao respaldo político nos bastidores do futebol sul-americano, cenário que acabou se mostrando insuficiente diante da força regulamentar exercida pelos adversários paulistas.
Fonte:: umdoisesportes.com.br


