A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) está finalizando os detalhes técnicos para o lançamento de uma consulta pública voltada à liberação do uso de 500 megahertz na faixa de 6 GHz para ambientes externos (conhecidos como outdoor). O anúncio foi feito pelo superintendente de Outorga e Recursos à Prestação da agência, Vinicius Caram, durante o evento institucional “Faixa de 6 GHz no Brasil: Equilíbrio Regulatório entre Inovação, Inclusão e Harmonização Internacional”.
Inicialmente cotada para ser leiloada em 2026, a destinação da faixa de 6 GHz passou por uma reavaliação. Devido ao estágio atual de maturidade do ecossistema tecnológico global e local, a Anatel decidiu postergar o cronograma para o ano de 2028, permitindo debates mais aprofundados entre os setores envolvidos.
Perspectiva dos provedores regionais
Representando os interesses dos provedores de internet de pequeno e médio porte, Arthur Coimbra, executivo da Associação Brasileira de Internet e Provedores (Abrint), destacou a importância estratégica da medida. Segundo ele, a aplicação externa da faixa de 6 GHz deve ser direcionada prioritariamente para locais de grande densidade populacional e tráfego intenso — a exemplo de arenas esportivas, centros de compras e grandes eventos públicos —, além de atuar como uma alternativa viável para levar conectividade a regiões de expansão de difícil acesso.
Para o setor de banda larga fixa, a qualidade da conexão sem fio é o elo final que garante a entrega de uma boa experiência ao usuário. Como lembrou Coimbra, uma infraestrutura robusta de fibra óptica pode ter seu potencial desperdiçado se a rede Wi-Fi doméstica ou corporativa não acompanhar essa capacidade.
Experiências internacionais e o papel do AFC
A presidente da Aliança de Espectro Dinâmico (DSA), Martha Soares, ressaltou que as soluções tecnológicas para a utilização externa dessa frequência já possuem maturidade técnica consolidada em diversos países. Ela citou exemplos como Canadá, Estados Unidos e Costa Rica — pioneira na América Latina na adoção de modelos eficientes —, além do sistema de Coordenação Automatizada de Frequências (AFC, na sigla em inglês) implementado no Reino Unido.
De acordo com a executiva, a medida confere protagonismo ao mercado brasileiro, impulsionado pela forte atuação dos provedores regionais de internet (ISPs). “Um sistema outdoor vai permitir às operadoras oferecer soluções mais robustas para empresas, que poderão contar com mais gigabit por segundo usando tecnologia Wi-Fi de alta performance”, afirmou.
No Reino Unido, a agência reguladora Ofcom adotou um modelo híbrido que serviu de referência. O país destinou uma porção exclusiva para priorizar o Wi-Fi na faixa baixa e estabeleceu regras para que a faixa alta, originalmente reservada para redes móveis, possa ser utilizada por conexões sem fio complementares por meio de bancos de dados em nuvem do sistema AFC, que evitam interferências e gerenciam o uso de alta potência.
O debate sobre a divisão do espectro
A estratégia regulatória adotada pelo Brasil prevê a divisão do espectro de 6 GHz: 700 megahertz da subfaixa superior destinados ao Serviço Móvel Pessoal (SMP) para redes celulares, e 500 megahertz da faixa inferior voltados para o uso não licenciado, predominante em roteadores Wi-Fi. No entanto, a decisão de adiar o leilão para 2028 gerou novas discussões no cenário governamental e industrial.
Recentemente, uma nota técnica emitida pela Secretaria de Reformas Econômicas (SRE) do Ministério da Fazenda sugeriu a realização de análises complementares sobre alternativas de divisão da faixa antes de qualquer processo licitatório. O documento apontou a existência de incertezas técnicas e econômicas na partilha do espectro entre as telecomunicações móveis e o ecossistema de redes sem fio de uso livre.
Em contrapartida, entidades internacionais saíram em defesa do modelo traçado pelo órgão regulador brasileiro. A Association (GSMA) avaliou que a divisão equalizada é o caminho mais seguro para garantir o desenvolvimento sustentável de ambas as indústrias, evitando conflitos por escassez de recursos radioelétricos.
Luciana Camargos, representante da GSMA, pontuou que a demanda por capacidade nas redes móveis (IMT) e nas redes Wi-Fi apresenta semelhanças expressivas, compartilhando frequentemente o mesmo público e os mesmos dispositivos finais. A especialista destacou que, mesmo em mercados avançados como o norte-americano, a ocupação efetiva da faixa de 6 GHz ainda registra patamares moderados, o que reforça a necessidade de otimizar o uso das frequências já disponíveis enquanto o ecossistema evolui para padrões mais eficientes, como o futuro Wi-Fi 8, focado em estabilidade extrema e confiabilidade de sinal.
Propostas da indústria para o futuro regulatório
Diante do cenário de transição, a Abrint estruturou três pilares fundamentais para o aperfeiçoamento das regras no país:
- A implantação do uso externo com tecnologia AFC na banda baixa, viabilizando conexões de alta velocidade em escolas públicas, grandes aglomerações e locais onde a expansão física de cabos é inviável no curto prazo;
- A adoção de um modelo de compartilhamento coordenado na banda alta, permitindo o aproveitamento reversível do espectro enquanto a infraestrutura celular definitiva não for instalada;
- Uma reavaliação periódica fundamentada em dados empíricos sobre o comportamento inicial do uso da frequência.
A expectativa do mercado é de que a consulta pública venha a consolidar diretrizes claras, equilibrando as demandas de expansão da banda larga fixa e das redes móveis de nova geração no território nacional.
Fonte:: convergenciadigital.com.br


