Cenário de ‘tempestade perfeita’ para alimentos preocupa e é risco também para 2027

Marcelo Borges
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Os efeitos das guerras em curso, especialmente a que envolve os Estados Unidos e o Irã, têm gerado um impacto significativo nos preços dos combustíveis, mas um novo foco de preocupação começa a se desenhar no horizonte: a inflação dos alimentos. Economistas consultados pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real do Grupo Estado, alertam que, enquanto em 2025 a situação parecia relativamente controlada, os próximos dois anos podem enfrentar uma pressão inflacionária maior do que a prevista tanto para este ano quanto para o próximo.

Os analistas destacam que o Banco Central enfrenta o desafio de manter a inflação sob controle, com a meta de 3% se tornando cada vez mais difícil de ser alcançada. Isso se deve em parte à alta nos preços dos fertilizantes, que foi exacerbada pelo atual conflito internacional, mas também a fenômenos climáticos que podem contribuir para uma “tempestade perfeita” no setor de alimentos.

Um dos fatores que preocupa é a possibilidade de um El Niño forte em 2026, que deve coincidir com o período seco do Sudeste. Este fenômeno climático, caso ocorra, pode resultar em um aumento de até 2 pontos percentuais no IPCA, segundo estimativas de uma análise da Warren Investimentos, especialmente em um cenário extremo.

A alimentação e bebidas compõem uma parte significativa da inflação, representando 21,3% do IPCA, valor que se eleva para 24,3% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que abrange famílias com renda menor. Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, revela que seus clientes do agronegócio estão bastante preocupados com a elevação nos preços dos fertilizantes. “Eles estão tentando fixar preços em patamares mais altos. Os custos adicionais inevitavelmente serão repassados aos consumidores, resultando em alimentos mais caros no futuro,” explica.

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Um estudo da Warren destaca seis itens que devem sofrer um repasse rápido devido à alta nos preços do petróleo: carnes, peixes industrializados, aves, leite e derivados, panificados, além de óleos e gorduras. Outros produtos, como cereais e alimentos consumidos fora de casa, apresentam um tempo médio de repasse de dois a quatro meses, enquanto itens como farinha e bebidas podem ter um repasse mais lento, que ocorre a partir de cinco meses após o choque de preços.

De acordo com Andréa Angelo, estrategista de inflação, esses produtos representam um impacto significativo, com uma projeção de 1,7 ponto percentual até 2027, devido ao aumento no preço do barril de petróleo tipo Brent. os custos para deslocamento dos produtos, especialmente no caso do leite, e o crescimento nos preços dos fertilizantes são os principais responsáveis por este impacto. “Os alimentos in natura reagem rapidamente ao aumento no custo dos fertilizantes, mas o efeito nos grãos e commodities pode ser mais pronunciado em 2027, dependendo da severidade dos aumentos de preços na safra,” observa.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, expressa sua preocupação com a evolução dos preços dos alimentos no próximo ano. Ele antecipa que a alimentação e bebidas não devem desacelerar muito, passando de uma inflação de 5,4% para cerca de 5%, mas com riscos de alta. “Enquanto este ano veremos uma pressão sazonal normal nos preços dos alimentos, o próximo pode ser mais turbulento, especialmente devido ao impacto do aumento nos fertilizantes que precisamos monitorar, pois depende da evolução da guerra,” afirma Vale.

Caso o El Niño se materialize de forma intensa, conforme indicado por entidades como a Organização Meteorológica Mundial (OMM) e o Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo, e coincidir com a escassez de água durante a fase crucial do milho na segunda safra, de abril a junho, isso poderia levar a uma elevação da inflação mensal em torno de 0,39 a 0,49 pontos. Em tal cenário, a inflação acumulada ao longo de 12 meses no setor alimentício poderia alcançar 10% ainda este ano.

Luis Otávio de Souza Leal, sócio e economista-chefe da G5 Partners, complementa que suas análises sugerem que anos com a presença do El Niño normalmente registram uma inflação anual média de 11,6% nos alimentos, em contraste com 6,1% durante anos sem o fenômeno. “Culturas de ciclo curto, como legumes e frutas, podem ser especialmente afetadas. Se o El Niño começar em junho, seus efeitos sobre os preços podem se concentrar ainda mais este ano. Se começarem em agosto, o impacto se estenderá para 2027,” projeta Leal.

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As previsões da G5 Partners indicam um aumento nos preços dos alimentos em domicílio de 5% este ano, com possibilidade de subir para 7% no próximo ano, refletindo assim as preocupações com a liderança da inflação de alimentos.

Fonte: infomoney.com.br

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