Como o Brasil pode explorar o atual foco da China em ampliar o consumo interno?

Marcelo Borges
6 min. de leitura
Foto: (Unsplash)

A atual estratégia da China de fortalecer seu consumo doméstico e reduzir a dependência econômica de exportações e investimentos pesados, conforme delineado no 15º Plano Quinquenal que abrange o período de 2026 a 2030, abre novas oportunidades para o Brasil. Esta análise é apresentada por Theo Paul Santana, especialista em negócios entre Brasil e China e fundador do Destino China.

De acordo com Santana, o Brasil já se encontra em uma posição vantajosa nas relações comerciais com a China, e o grande desafio agora é transformar a exportação de commodities em uma estratégia voltada para produtos de maior valor agregado.

Uma das áreas com maior potencial identificada pelo especialista é a de proteínas animais. Em 2025, o Brasil exportou para a China aproximadamente US$ 8,9 bilhões em carne bovina. A demanda chinesa por esse tipo de produto continua a crescer, e o Brasil mantém uma competitividade significativa nesse setor, explica.

Além da carne bovina, Santana menciona o café como um segmento promissor. Apesar do consumo per capita de café na China ainda ser muito inferior ao do Brasil, a demanda está aumentando rapidamente, especialmente entre os consumidores jovens nas áreas urbanas. Um acordo firmado entre a Luckin Coffee e exportadores brasileiros prevê um volume de compras em torno de US$ 1,4 bilhão até 2029, ressaltando o interesse crescente da China por este produto.

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O mercado de cosméticos naturais e produtos da biodiversidade amazônica, como própolis, também é citado como tendo grande potencial. Santana destaca que os consumidores chineses de alta renda estão cada vez mais valorizando a rastreabilidade, a origem dos produtos, a sustentabilidade e o bem-estar — características nas quais o Brasil pode se destacar e criar uma proposição única.

Entretanto, o especialista alerta que para aproveitar essas novas oportunidades, as empresas brasileiras precisarão ir além do fornecimento de produtos. É crucial desenvolver uma estratégia para o mercado chinês, incluindo investimentos em certificações, rotulagem em mandarim, operação digital, uso de influenciadores locais e presença em plataformas de comércio eletrônico na China, como Tmall Global, JD International e Douyin. “Um erro comum entre as empresas brasileiras é pensar que a China opera como um mercado ocidental. As regras são diferentes”, adverte.

Portanto, segundo Santana, a janela de oportunidades é imensa, mas demanda profissionalização das empresas, uma marca bem posicionada e um entendimento profundo do comportamento do consumidor chinês.

Impactos nas Cadeias de Produção Global

O avanço do consumo interno na China pode provocar transformações significativas nas cadeias de produção global, uma das mais relevantes mudanças econômicas para a próxima década, segundo Theo Santana. Atualmente, a China ainda exporta uma quantidade significativa de deflação para o mercado global, produzindo mais do que consome. Isso se aplica a setores como aço, veículos elétricos e painéis solares, onde há um excesso de capacidade industrial. Quando a produção não é absorvida internamente, acaba afetando os preços globalmente.

Se o consumo doméstico crescer conforme esperado, uma parte maior dessa produção será absorvida pela população chinesa, resultando em uma diminuição da pressão sobre os mercados de manufatura, siderurgia e indústrias pesadas ao redor do mundo.

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Além disso, o Fundo Monetário Internacional (FMI) aponta que, caso a China consiga implementar reformas estruturais, como a melhoria da proteção social e a flexibilização do sistema hukou (registro de residência permanente), o aumento no consumo interno poderá adicionar até 2,5% ao PIB até 2030 e criar milhões de novas vagas de emprego.

Outra área que pode se beneficiar deste crescimento são os produtos importados premium. Calcús no tempo, categorias como café especial, alimentos saudáveis, cosméticos naturais e experiências de consumo sofisticadas estão em rápida ascensão, conforme o mercado chinês evolui.

Um ponto estratégico adicional mencionado por Santana é o crescimento do comércio eletrônico transfronteiriço. O comércio digital na China já movimenta mais de US$ 400 bilhões, facilitando para marcas internacionais venderem diretamente para consumidores chineses, sem a necessidade de uma operação física em território chinês.

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Essa mudança representa uma nova abordagem para a entrada de pequenas e médias empresas no mercado chinês. Contudo, o sucesso dessa estratégia depende da execução efetiva das reformas internas dentro da China. Apesar de mais de duas décadas de promessas para fortalecer o consumo doméstico, o progresso ainda tem sido relativamente lento.

A reforma do consumo interno na China e o crescente interesse por produtos externos representam uma oportunidade significativa para o Brasil, exigindo, no entanto, uma abordagem estratégica e bem planejada.

Fonte: infomoney.com.br

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