Hoje, 25 de maio, comemora-se o Dia da África, data que celebra a unidade e diversidade do continente africano. Nos últimos anos, a África tem aproveitado a ascensão econômica da China para avançar em seu próprio desenvolvimento, especialmente por meio de colaborações em transporte, energia e infraestrutura industrial. Em resposta a essa influência chinesa, os Estados Unidos têm buscado rivalizar com Pequim, enquanto líderes africanos procuram um papel mais central no cenário global.
O deslocamento do centro da economia global, anteriormente dominado por países da Europa e dos Estados Unidos, para a Ásia, com destaque para a China, tem sido um fator transformador para muitos países africanos. O comércio entre a China e a África alcançou US$ 295 bilhões em 2024, um aumento de 6% em relação ao ano anterior, consolidando a China como o principal parceiro comercial do continente africano há 17 anos.
Infraestrutura e Investimentos
Um exemplo emblemático da cooperação sino-africana é o Parque Industrial PK24, localizado nos arredores de Abidjan, capital da Costa do Marfim. Este parque, desenvolvido em parte pela empresa China Light Industry Nanning Design Engineering, possui capacidade para processar 50 mil toneladas de cacau anualmente e armazenar até 140 mil toneladas, representando um marco significativo na criação de valor agregado no país.
De acordo com Eden Pereira Lopes da Silva, pesquisador do Núcleo de Estudos Sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul da UFRJ, os projetos chineses visam conectar regiões essenciais dentro do continente. “Esses projetos não se limitam à cooperação industrial; eles também visam a criação de uma vasta rede de corredores comerciais, principalmente através de importantes portos e a reabilitação de ferrovias”, explicou o historiador.
Investimentos Chineses na Nova Rota da Seda
Projetos relacionados à Nova Rota da Seda, uma iniciativa liderada pela China para criar uma rede comercial com cerca de 150 países, têm colocado a África em destaque. Em 2025, o continente recebeu US$ 61,2 bilhões dos US$ 213 bilhões em investimentos chineses previstos, um crescimento impressionante de 283% em comparação ao ano anterior. Os principais beneficiários foram Nigéria e República do Congo, ambos com investimentos acumulados significativos.
A professora de relações internacionais da Universidade Federal da Bahia, Elga Lessa de Almeida, ressalta que a abordagem da China é mais favorável aos países africanos do que a dos países europeus ou dos Estados Unidos. “A China se apresenta de uma forma mais diplomática, permitindo que os africanos definam suas próprias necessidades, ao contrário de uma postura mais coercitiva”, afirmou Elga.
Relações com a Rússia e Mudanças no Cenário Global
A Rússia tem também se destacado como parceiro em relações africanas, superando os EUA em termos de colaboração no continente. Os investimentos estratégicos da Rússia, particularmente na área de energia, são significativos. Recentemente, acordos foram firmados com a Etiópia para desenvolver uma usina nuclear, o que exemplifica a crescente influência russa na região.
No caso de Angola, a relação com a China se consolidou após a guerra civil que durou de 1975 a 2002. O país buscou a China para financiamento, inicialmente em troca de petróleo, o que resultou em uma dependência de longa data. Contudo, Angola foi se reestruturando para reduzir essa dependência, investindo em novas refinarias e buscando diversificar sua economia.
Desafios do Endividamento
Apesar dos benefícios a longo prazo associados aos empréstimos chineses, existe uma preocupação acerca do endividamento dos países africanos. Eden Pereira Lopes da Silva enfatiza que o tal endividamento deve ser tratado com cautela, verificando sempre o impacto que isso pode ter no orçamento nacional. “Esses empréstimos geralmente financiam infraestrutura, o que difere de dívidas relacionadas ao consumo”, observou.
Reação dos Estados Unidos
Em face da crescente influência chinesa, os EUA têm buscado reforçar suas relações com países africanos, priorizando o acesso a minerais críticos e terras raras. Estima-se que a África possua cerca de 30% desses recursos, aumentando a competição entre as duas potências. O governo dos EUA tem implementado novas políticas focadas em comércio e investimento, ao invés da assistência humanitária tradicional.
Para contrabalançar a presença da China, os EUA estão revitalizando projetos de infraestrutura, como o Corredor de Lobito em Angola, inicialmente financiado pelos chineses. O presidente Joe Biden anunciou um investimento de US$ 600 milhões nesse projeto em sua última visita a Angola, enfatizando o desejo dos EUA de retomar influência no continente.
Oportunidades e Autonomia Africana
Ao longo das últimas décadas, os países africanos têm buscado aumentar sua autonomia e soberania frente a uma ordem internacional em constante mudança, representando uma mudança significativa desde o período pós-colonial. A União Africana, por exemplo, tem adotado novas metas e agendas, como a Agenda 2063, que visa a unidade e integração do continente.
Além disso, a Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA) implementada em 2021, cobre a maioria dos países do continente e procura reduzir barreiras comerciais, incentivando o comércio interno.
O historiador Eden Pereira acredita que a ordem internacional atual oferece mais oportunidades para os países africanos do que na época colonial, com nações como África do Sul e Etiópia se destacando na cena global.
Com a busca por novos parceiros e a habilidade de negociar termos favoráveis, a África pode, finalmente, moldar seu próprio futuro em um mundo cada vez mais multipolar.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


