Em meio às diretrizes rigorosas de imigração implementadas sob a gestão do presidente norte-americano Donald Trump, uma religiosa católica tornou-se uma referência central na proteção da comunidade latina em Pittsburgh, na Pensilvânia. A atuação do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) tem gerado forte apreensão entre imigrantes, motivando respostas organizadas da sociedade civil.
A irmã Janice Vanderneck fundou a Casa San José em 2013, prestando inicialmente serviços educacionais básicos, como aulas de inglês e atividades para jovens. Com o endurecimento das políticas migratórias, a instituição expandiu suas frentes para oferecer assessoria jurídica e equipes dedicadas a documentar e monitorar as ações do ICE.
“A forma como o nosso país trata os imigrantes vai contra a doutrina social católica”, pontua a irmã Janice. Para ela, as práticas governamentais de humilhação, detenção e deportação de latinos, por vezes para países distantes na África, ultrapassam limites humanitários aceitáveis.
Com passagens missionárias por diversos países, incluindo o Brasil, a freira é fluente em português e espanhol, o que facilitou a proximidade com os imigrantes latino-americanos.
Assistência integral a imigrantes sem documentação regular
A Casa San José atua de forma ampla para amparar famílias afetadas pela fiscalização. O trabalho conta com o reconhecimento de lideranças locais. Kate Garfinkel, dirigente do Partido Democrata no Condado de Allegheny, define a ativista como uma figura firme e admirável.
Entre as iniciativas da entidade estão a busca por soluções de guarda temporária para menores cujos pais foram deportados e a realização de treinamentos preventivos com a comunidade sobre como proceder diante de uma abordagem de agentes federais. Voluntários da instituição também realizam visitas a centros de detenção para mapear a situação dos detidos e orientar familiares sobre possibilidades legais.
A barreira do idioma e a vulnerabilidade dos recém-chegados
A entidade prioriza o suporte a quem não domina a língua inglesa. Historicamente voltada a populações do México, Guatemala e El Salvador, a organização registrou um aumento expressivo na procura por parte de venezuelanos e brasileiros nos últimos anos.
A ativista critica a generalização feita pelo governo norte-americano ao classificar todos os imigrantes sem documentos sob o mesmo rótulo, equiparando quem cruzou as fronteiras de forma irregular àqueles que ingressaram com autorizações legais para solicitar asilo.
Equipes de resposta rápida e monitoramento
Para mitigar os impactos das operações, a organização instituiu um núcleo de resposta rápida. Trata-se de uma rede de voluntários acionada por imigrantes via telefone para acompanhar batidas do ICE.
Embora os voluntários não tenham autorização para impedir detenções, eles registram as ocorrências em vídeo — prática permitida por lei — com o intuito de rastrear o paradeiro dos detidos e garantir o respeito aos direitos fundamentais.
Em outras localidades da Pensilvânia, iniciativas semelhantes operam sob a coordenação de grupos como a PA United. Carlos Mora, representante da entidade em Erie, reforça que a atuação é pautada na garantia de direitos constitucionais válidos a todas as pessoas em solo norte-americano, independentemente do status migratório nos EUA.
Crescimento nas deportações e novos destinos
O governo federal mantém voos de deportação para diversas nações latino-americanas e destinos africanos, incluindo Uganda, Gana e Libéria. Relatos de pessoas retidas em Gana sem perspectiva de retorno evidenciam as barreiras diplomáticas enfrentadas pelos deportados.
Impacto sobre a comunidade haitiana
A tensão migratória também atinge com força a comunidade haitiana. A situação é crítica em Springfield, Ohio, onde cerca de 15 mil haitianos residiam sob o Status de Proteção Temporária (TPS). Após decisões judiciais que reverteram proteções federais para centenas de milhares de imigrantes, operações de remoção se intensificaram na região.
Contraponto político e o mercado de trabalho
Defensores da linha adotada pela Casa Branca argumentam que o cumprimento das promessas de campanha visa restabelecer a ordem nas fronteiras. Mat Dole, liderança republicana no condado de Licking, em Ohio, defende que a legislação deve ser aplicada rigorosamente aos que se encontram irregularmente no país.
Em contrapartida, representantes de setores econômicos e sindicais apontam que a economia norte-americana continua dependendo da força de trabalho imigrante. Lideranças da área da saúde e da construção civil destacam a escassez de profissionais para suprir a demanda em serviços essenciais e de alta exigência física.
Fonte:: estadao.com.br


