Cientistas que examinaram imagens de satélite e dados sismológicos divulgaram novos detalhes sobre o desastre natural que atingiu o Nepal e o Tibete. De acordo com as análises, um deslizamento de terra em grande altitude, somado ao colapso de uma geleira, foi o principal gatilho para as enchentes repentinas que deixaram centenas de mortos na região asiática.
Especialistas em glaciologia e geologia já haviam identificado anteriormente que um bloco massivo de gelo se desprendeu na manhã de uma quarta-feira. No entanto, novos registros visuais capturados em condições de menor cobertura de nuvens permitiram constatar que uma imensa estrutura rochosa situada sob a geleira também ruiu no mesmo período.
“A rocha sobre a qual a geleira estava apoiada desabou”, explicou Kristen Cook, especialista em geomorfologia da Université Grenoble Alpes. Segundo a pesquisadora, a força combinada desses dois eventos despejou milhões de toneladas de material sólido e gelo em direção ao vale localizado abaixo.
“Foi um colapso muito maior do que conseguimos observar inicialmente nas imagens de satélite”, completou Kristen, destacando a magnitude sem precedentes do fenômeno na área afetada.
Impacto sísmico e energia liberada
A avalanche de rocha e gelo gerou uma transformação drástica ao longo do percurso, convertendo-se em uma densa mistura de lama e água. A intensidade do impacto foi tamanha que o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) registrou a movimentação como um evento sísmico de magnitude 5,2.
Especulações técnicas apontam que o registro de um terremoto em situações como essa ocorre devido à imensa transferência de energia para a crosta terrestre — processo semelhante ao gerado por tremores naturais, impactos de asteroides ou grandes aglomerações em eventos de entretenimento.
O fluxo de detritos liberou uma quantidade de energia equivalente à detonação de 1 mil toneladas de TNT. Para Stephen Hicks, sismólogo da University College London, o dado mais relevante vai além da energia: “Podemos calcular diretamente a massa a partir de nossa estimativa de força. O resultado é de quase 400 milhões de toneladas”. Em termos práticos, o volume equivale à queda simultânea de mil edifícios do porte do Empire State.
Fatores climáticos e investigações
Embora pesquisadores apontem que o avanço das temperaturas globais ligado às mudanças climáticas possa ter desestabilizado a encosta rochosa, eles ressaltam que ainda é prematuro cravar uma única causa definitiva para a fragilização da montanha.
O incidente teve origem na face norte do Langtang Lirung, montanha nepalese próxima à fronteira com o Tibete, situada a cerca de 5,2 mil metros de altitude. “Essencialmente, um trecho da encosta da montanha desabou”, pontuou o geólogo Daniel Shugar, da University of Calgary.
A sequência exata de destruição ainda está sendo mapeada por equipes internacionais. Torrentes de água percorreram os vales do Himalaia entre o Nepal e a região autônoma do Tibete, na China, destruindo vilarejos inteiros, provocando centenas de óbitos e deixando mais de 1,4 mil pessoas desaparecidas.
De acordo com Kristen Cook, o material rochoso e congelado incorporou sedimentos e água de rios locais ao longo do trajeto, estendendo os danos por dezenas de quilômetros a partir do ponto inicial da tragédia.
Respostas pendentes e próximas etapas
Mesmo com o avanço nas análises de satélite, diversas incógnitas permanecem, como o volume exato de material liberado e os motivos que tornaram o fluxo de água tão expressivo durante o transbordamento.
Dibas Shrestha, especialista em hidrologia e meteorologia da Universidade Tribhuvan, relatou em contato por e-mail a perplexidade diante da catástrofe: “Não conseguia sequer imaginar o volume da mistura de gelo, água e rocha que testemunhamos rio abaixo”. Imagens gravadas no posto de fronteira de Gyirong registraram o avanço violento da parede d’água.
Entre as hipóteses levantadas, cientistas avaliam que o deslizamento pode ter gerado represamentos temporários em rios a montante, cujos rompimentos posteriores deflagraram ondas ainda mais destrutivas. Mohan Bahadur Chand, glaciologista da Universidade de Katmandu, estuda a possibilidade de detritos terem bloqueado provisoriamente o rio Lhende.
Com a promessa de novas imagens de alta resolução nos próximos dias, a comunidade científica espera mensurar com precisão o volume de gelo desprendido e entender detalhadamente a dinâmica hidrológica que marcou o evento no Himalaia.
Fonte:: estadao.com.br


