No clássico programa de televisão norte-americano “To Tell the Truth” (Para Dizer a Verdade), três participantes alegavam ser a mesma pessoa enquanto um painel de celebridades os interrogava na tentativa de encontrar inconsistências. Após o voto do painel, o apresentador fazia a icônica pergunta: “O verdadeiro participante poderia, por favor, se levantar?”. A população da Venezuela tem repetido esse questionamento em relação ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, desde que tropas americanas capturaram o presidente Nicolás Maduro em janeiro. Mais de meio ano depois, a resposta definitiva continua ausente.
No cenário político atual, três versões de Rubio parecem coexistir, cada uma apresentando argumentos sólidos para ser considerada a verdadeira. A primeira persona é aquela que muitos venezuelanos acreditavam conhecer: o descendente de imigrantes cubanos consciente dos estragos provocados por ditaduras, que dedicou grande parte de sua trajetória pública a combater tiranias e a defender os princípios de liberdade, democracia e Estado de Direito.
Essa faceta de Rubio estaria engajada em embates internos contra alas do governo do presidente dos EUA, Donald Trump, que enxergam a Venezuela estritamente como um recurso petrolífero a ser explorado e um desafio de segurança a ser administrado. Sob essa perspectiva, ele almejaria a soltura de presos políticos, a desmontagem de estruturas repressivas, a reformulação do sistema eleitoral e a garantia de autodeterminação para os venezuelanos, impedindo que o antigo regime sobrevivesse sob nova roupagem.
A segunda vertente de Rubio, contudo, não atua em oposição à estratégia da Casa Branca, mas sim como sua executora. Ela tranquiliza os opositores ao prometer reformas democráticas enquanto os Estados Unidos negociam abertamente com os herdeiros da máquina chavista, liderados pela presidente interina Delcy Rodríguez. Nesse arranjo, a dinâmica do “policial bom” e do “policial mau” opera sob a mesma diretriz estratégica.
Já a terceira persona comanda uma estrutura econômica opaca na qual as rendas do petróleo, acordos e instituições venezuelanas beneficiam diretamente os integrantes do regime e os negociadores de Washington. Nesse contexto, a democracia deixa de ser a meta principal e passa a ser tratada como um empecilho. Meses após a posse de Rodríguez, seu governo interino continua composto por leais ao regime. Centenas de detentos políticos continuam encarcerados, o aparato de segurança permanece inalterado e nenhum calendário eleitoral foi fixado. Questionada sobre prazos para votações populares, Rodríguez limitou-se a declarar: “Não sei, algum dia”.
O cenário permanece inalterado dois anos após o pleito em que a população escolheu esmagadoramente o candidato da oposição, Edmundo González, cuja vitória foi bloqueada. Nenhuma das condições fundamentais para eleições legítimas foi implementada até o momento. Antes de qualquer nova ida às urnas, o país exigiria uma autoridade eleitoral autônoma, um registro de eleitores que contemple os milhões de cidadãos no exterior, a revogação de legislações repressivas, observação internacional independente e garantias de respeito militar ao veredito das urnas.
O controle financeiro e a influência de Washington
A influência direta dos Estados Unidos sobre essas decisões é inegável. Conforme apontado por veículos como o jornal The New York Times, Rubio exerce controle efetivo sobre as finanças venezuelanas e a distribuição de seus recursos naturais, com Rodríguez buscando aval direto de Washington para nomeações governamentais cruciais.
O fluxo das exportações petrolíferas passa inicialmente pelo Tesouro norte-americano, que realiza repasses condicionados — um modelo comparado por analistas à dinâmica de mesadas familiares. Assumindo um nível de intervenção soberana inédito desde a ocupação do Iraque por Paul Bremer, autoridades de ambos os países passaram a se referir a Rubio informalmente como o “vice-rei”.
Apesar de o governo Trump propagar que volumosos recursos financeiros do petróleo estão sendo direcionados à Venezuela, a ausência de transparência sobre a arrecadação e os gastos públicos compromete a credibilidade do processo de transição. Contas sigilosas e controle financeiro centralizado por estrangeiros enfraquecem a legitimidade de qualquer reestruturação institucional.
Crise humanitária agravada por desastres naturais
O novo governo enfrentou sua primeira grande crise em 24 de junho, quando dois terremotos de grande magnitude, de 7,2 e 7,5, atingiram Caracas e a região costeira de La Guaira com um intervalo de poucos segundos. Os registros oficiais apontam quase 5.000 mortes e mais de 16.000 feridos, enquanto organizações da sociedade civil denunciam dezenas de milhares de desaparecidos e relatos de obstrução de resgates pelas forças de segurança.
A gestão de Rodríguez rechaçou as críticas, classificando-as como articulações conspiratórias, e utilizou o estado de emergência decorrente da tragédia como nova justificativa para adiar reformas democráticas. Na Venezuela de hoje, até mesmo os desastres naturais servem aos interesses dos que estão no poder.
Um indicativo inequívoco da postura norte-americana em relação à transição foi o tratamento dispensado a María Corina Machado, principal liderança oposicionista e laureada com o Nobel da Paz de 2025. Ao tentar retornar ao território nacional após os abalos sísmicos, o espaço aéreo foi fechado pelo governo de Rodríguez, enquanto autoridades dos EUA pressionaram para que sua aeronave retornasse, com um porta-voz da Casa Branca classificando a tentativa de regresso como oportunismo político.
Paralelamente, a situação dos imigrantes venezuelanos nos Estados Unidos sofreu endurecimento, com restrições a vistos, cancelamento de autorizações humanitárias para dezenas de milhares de pessoas e manutenção de voos de deportação. A contradição entre a justificativa de que a Venezuela seria perigosa o suficiente para justificar a queda de seu governante e a alegação de que é segura para o retorno de exilados permanece sem justificativa sólida.
Diante desse cenário, a identidade do verdadeiro Marco Rubio perde relevância prática frente aos resultados concretos observados. A credibilidade do processo dependerá de evidências verificáveis: a libertação definitiva de presos políticos, a criação de uma autoridade eleitoral confiável, um cadastro cívico legítimo, o retorno seguro de María Corina Machado e a prestação de contas integral sobre as receitas do petróleo. Promessas distantes desses requisitos configuram apenas encenação política.
Fonte:: estadao.com.br


