Um levantamento divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revelou que 9% dos professores da educação básica pública no Brasil não possuíam qualificação completa entre os anos de 2024 e 2025. O índice nacional alinha-se de perto com a média observada entre os países membros da organização, que ficou em 9,1%. O indicador estatístico considera docentes que atuam sem diploma acadêmico, sem certificação profissional adequada ou sem a devida formação pedagógica exigida para a função.
O relatório intitulado Panorama da Educação (Education at a Glance) detalha que a prática de contratar profissionais sem as credenciais exigidas como padrão ocorre, na maioria das vezes, devido à escassez de mão de obra qualificada no mercado. A edição atual da publicação internacional aprofunda a análise sobre os fatores motivadores da falta de educadores e os reflexos diretos dessa carência nos sistemas de ensino de diversas nações.
No território brasileiro, o déficit de professores não se distribui de maneira uniforme, apresentando maior intensidade em localidades específicas e disciplinas particulares. Conforme o documento da OCDE, as barreiras para o recrutamento de profissionais costumam ser mais severas em regiões isoladas, áreas de vulnerabilidade socioeconômica, e concentram-se principalmente nas áreas de matemática e ciências naturais.
O papel central da docência
A importância do corpo docente para o avanço educacional é apontada por especialistas como um fator determinante para o sucesso escolar. “O professor é decisivo para a aprendizagem. É ele quem percebe onde cada estudante encontra dificuldades, adapta o ensino e ajuda a transformar conhecimento em possibilidades de vida. Por isso, valorizar os professores é uma escolha sobre o futuro do Brasil”, declarou o superintendente-executivo do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques.
Dinâmica no número de professores
Apesar de o país registrar uma redução gradual no volume total de estudantes, os dados mostram que o Brasil conseguiu ampliar o quadro de professores atuantes nos anos iniciais do ensino fundamental. Entre os anos de 2015 e 2024, a quantidade de docentes em atividade apresentou um crescimento de 4%. Em contrapartida, o número de matrículas de alunos sofreu uma retração de 7% no mesmo período analisado.
No panorama geral dos países que integram a OCDE, o contingente de professores em escolas primárias, tanto públicas quanto privadas, registrou uma expansão média de 13% no intervalo avaliado, enquanto a população estudantil cresceu em média 2%.
Projeções estatísticas elaboradas pela OCDE indicam que a faixa populacional de crianças com idade entre 5 e 14 anos no Brasil deverá apresentar uma queda de 3% no período compreendido entre 2024 e 2033. Caso o cenário macroeconômico e as políticas públicas vigentes permaneçam inalterados, essa tendência demográfica deve resultar em uma diminuição progressiva na demanda futura por novos postos de trabalho para professores.
Formação, permanência e evasão
Para o superintendente-executivo do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques, a discussão sobre a qualidade da educação não deve se restringir estritamente à quantidade de profissionais diplomados inseridos no mercado de trabalho.
“É preciso saber quem chega à escola, com que formação, para ensinar qual disciplina, em que território e por quanto tempo consegue permanecer”, pontuou o especialista.
O relatório internacional também joga luz sobre a evasão profissional, apontando que a saída de educadores da rede pública agrava a escassez. No Brasil, o índice de professores plenamente qualificados que deixaram a profissão no ano de 2022 atingiu 10,3%, motivados por processos de aposentadoria ou pedidos de demissão. Em comparação, a taxa média registrada nos países da OCDE foi de 6,4% ao longo do ano letivo de 2024 a 2025.
Segundo a avaliação de Henriques, o índice estatístico não indica obrigatoriamente o abandono definitivo da carreira docente por parte de todos os profissionais. Uma parcela significativa desses trabalhadores pode ter migrado para instituições da rede privada de ensino. Contudo, o movimento de transição continua a impor um obstáculo considerável para a retenção de talentos nas escolas públicas.
Remuneração e clima escolar
A análise da OCDE destaca que múltiplos fatores exercem influência direta sobre a atratividade da carreira no magistério, incluindo o patamar salarial, as condições estruturais de trabalho, o relacionamento interpessoal com alunos e familiares, o clima institucional nas escolas, o grau de autonomia profissional e o reconhecimento social da profissão.
Os dados de 2022 mostram que apenas 44,3% dos professores brasileiros que lecionavam nos anos finais do ensino fundamental demonstravam satisfação com o ambiente e as condições de trabalho. O percentual fica consideravelmente abaixo da média observada nos países da organização, que alcançou 68,4%.
No quesito remuneração, o cenário de insatisfação se mostrou ainda mais evidente: apenas 22,3% dos docentes no Brasil declararam estar satisfeitos com os salários recebidos, em contraste com a média de 38,7% registrada no conjunto dos países membros da entidade.
Em resposta aos indicadores, o Ministério da Educação (MEC) pontua que mantém políticas ativas voltadas à valorização da remuneração da categoria, com ênfase na aplicação do Piso Salarial Profissional Nacional do Magistério Público das Lideranças da Educação Básica, que atualmente está fixado em R$ 5.130,63.
Estratégias e programas governamentais
Como medida de enfrentamento à escassez de docentes, o MEC destaca a implementação do programa Mais Professores para o Brasil, lançado em 2025, que engloba um conjunto de ações focadas no fortalecimento e na valorização da trajetória profissional do magistério.
Outra frente estratégica citada é o programa Pé-de-Meia Licenciaturas, desenhado com o propósito de estimular o ingresso de novos alunos nos cursos superiores de formação de professores. O ministro da Educação, Leonardo Barchini, ressaltou que a iniciativa gerou um impacto expressivo no perfil dos ingressantes.
“Com o Pé-de-Meia Licenciaturas, aumentamos em 106% as matrículas de estudantes de alto desempenho no Enem, de 2024 a 2026. Cada vez mais, jovens estão enxergando na docência um projeto de vida”, afirmou Barchini por meio de nota oficial distribuída à imprensa.
No âmbito da capacitação acadêmica, o ministério mencionou a manutenção de ferramentas como o monitoramento periódico da qualidade dos cursos de licenciatura por meio dos resultados do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), a expansão do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) e a modernização das diretrizes para a formação inicial.
“Ainda há desafios históricos a enfrentar, mas o Brasil voltou a ter uma política estruturada, contínua e abrangente para formar, atrair, reconhecer e valorizar seus professores”, concluiu o ministro Leonardo Barchini.
Transição para a docência em segunda carreira
A incorporação de profissionais oriundos de outras áreas do mercado de trabalho para atuar na docência é apontada pelo relatório da OCDE como uma alternativa viável para mitigar o déficit de professores nas salas de aula.
No contexto brasileiro, o levantamento indicou que 11,5% dos professores que lecionavam nos anos finais do ensino fundamental em 2024 encontravam-se em uma trajetória de segunda carreira. O patamar nacional supera a média registrada entre os países da OCDE, que ficou estabelecida em 8,4%.
O relatório Panorama da Educação é editado anualmente pela organização internacional, consolidando um vasto conjunto de dados estatísticos que possibilitam análises comparativas entre os modelos educacionais das nações participantes. O Brasil integra o grupo de países avaliados na publicação desde o ano de 1997. No âmbito nacional, o processamento estatístico das informações e a apuração dos indicadores oficiais ficam sob a responsabilidade do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br


