Peru: esquerda enfrenta Fujimori em 2º turno após apuração tumultuada

Marcelo Borges
6 min. de leitura
Foto: © Reuters/Angela Ponce/Proibida reprodução

Após um mês marcado por conflitos e incertezas, o Peru finalmente anunciou os candidatos que competirão no segundo turno das eleições presidenciais, agendado para o dia 7 de junho. O povo peruano também elegeu 130 deputados e 60 senadores, em um cenário de crise política que já levou a nação a ter nove presidentes nos últimos dez anos.

A candidata de direita, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, garantiu 17,18% dos votos, enquanto o candidato de esquerda, Roberto Sánchez Palomino, obteve 12,03%. Sánchez foi ministro no governo do ex-presidente Pedro Castillo, que foi deposto e preso sob acusações de tentativa de golpe de Estado.

O resultado da disputa foi acirrado, com Sánchez enfrentando uma forte concorrência do ultraconservador Rafael Aliaga, que terminou com 11,90% dos votos, apenas 21 mil votos atrás. Entre os mais de 27 milhões de eleitores habilitados, 35 candidatos estavam na corrida presidencial, o que tornou o processo ainda mais complexo.

Durante a apuração, surgiram denúncias do Ministério Público contra Sánchez, que o acusa de irregularidades financeiras relacionadas ao seu partido entre 2018 e 2020. O candidato nega as acusações e se defende dizendo que se trata de uma manobra política.

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Desafios na eleição

A eleição no Peru foi marcada por uma série de dificuldades. Houve atrasos em alguns centros de votação, principalmente em Lima, além de alegações, sem evidências concretas, de fraude eleitoral feitas por Aliaga. A situação se complicou ainda mais com a renúncia de um membro da autoridade eleitoral e a necessidade de atrasar a apuração dos votos.

Entretanto, observadores internacionais, incluindo as missões da União Europeia e da Organização dos Estados Americanos (OEA), afirmaram não ter encontrado provas que sustentem as acusações de fraude. A proclamação oficial dos resultados está prevista para ocorrer no dia 17 de maio, após um processo inédito de recontagem de votos; houve ainda pedidos para nova votação que foram rejeitados pela autoridade eleitoral.

O Peru, com cerca de 34 milhões de habitantes, é o quarto país mais populoso da América do Sul e faz uma extensa fronteira de 2.900 quilômetros com o Brasil, o que coloca o país em uma posição geopolítica significativa na região.

Os desafios enfrentados pelos candidatos

Keiko Fujimori tem uma história complicada nas eleições, pois perdeu no segundo turno em três corridas presidenciais anteriores – 2011, 2016 e 2021. Seu contínuo insucesso eleitoral levanta especulações sobre a dificuldade que ela e seu partido enfrentam em superar a rejeição à herança política de seu pai, que é lembrado por sua violação de direitos humanos durante sua ditadura.

A candidata de direita também tem promovido uma política de aproximação com os Estados Unidos, especialmente durante a administração de Donald Trump, o que poderia afetar o fluxo de investimentos da China no país. Um exemplo é o Porto de Chancay, fundamental para a exportação de produtos peruanos para a Ásia.

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Fujimori agora enfrenta Sánchez, que é considerado um aliado do ex-presidente Pedro Castillo. Para seus apoiadores, Castillo se tornou uma figura simbólica das vozes marginalizadas no parlamento peruano. As propostas de Sánchez incluem a nacionalização dos recursos naturais, a convocação de uma nova assembleia constituinte para reformar os poderes institucionais e ampliar os direitos dos trabalhadores.

Com formação em psicologia, Sánchez foi ministro do Comércio Exterior e Turismo durante o governo de Castillo, e foi um defensor ativo da criação do Porto de Chacay, iniciativa que visa aumentar o comércio do país.

Acusações contra Sánchez

No dia 12 de maio, as autoridades peruanas tornaram públicas as acusações contra Sánchez, apontando supostas declarações falsas sobre os financiamentos de sua campanha. O Ministério Público pediu sua prisão e “inabilitação definitiva” para cargos públicos. Contudo, Sánchez rebateu, afirmando que as acusações feitas contra ele já foram arquivadas pelo Judiciário anteriormente.

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Ele se defendeu em declarações à imprensa, reforçando que nunca foi tesoureiro do partido, e negou qualquer envolvimento em corrupção ou irregularidade financeira, afirmando que não recebeu recursos ilícitos de nenhuma entidade.

Contexto da crise política no Peru

A última eleição, em 2021, trouxe à tona o ex-professor rural Pedro Castillo, que, inesperadamente, derrotou Keiko Fujimori no segundo turno. A vitória de Castillo, um representante da centro-esquerda, surpreendeu muitos analistas, pois ele não era um dos principais nomes nas pesquisas de opinião antes do pleito.

Contudo, Castillo foi destituído e preso após tentar dissolver o Parlamento e foi condenado em 2025 por tentativa de golpe, gerando um clima de polarização política no país. Sua vice, Dina Boluarte, assumiu a presidência, mas sua gestão foi marcada por repressão violenta às manifestações populares, resultando em um saldo trágico de 49 mortos, segundo a Anistia Internacional.

Boluarte teve sua popularidade drasticamente reduzida e foi destituída em outubro de 2025, sendo sucedida por José Jerí e, posteriormente, por José María Balcázar Zelada em um processo parlamentar conturbado, que evidenciou a fragilidade das instituições políticas no país andino.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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