Polícia Federal aponta cobranças de senador a dono do Banco Master por filme

Marcelo Borges
7 min. de leitura
Foto: © Bruno Peres/Agência Brasil

Novos relatórios produzidos pela Polícia Federal (PF) a respeito do financiamento da cinebiografia Dark Horse — obra centrada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro — revelam detalhes sobre conversas e cobranças financeiras. Conforme a investigação, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobrou diretamente o empresário Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, para honrar os repasses acordados para a produção cinematográfica.

Os documentos reunidos pelos investigadores também apontam indícios de encontros presenciais entre o parlamentar e o banqueiro, além de aprofundarem a apuração sobre o envolvimento do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) na logística e articulação das verbas destinadas ao projeto.

De acordo com os apontamentos da corporação, o senador teria solicitado a quantia de R$ 131 milhões a Vorcaro para viabilizar o longa-metragem, sendo que aproximadamente R$ 60 milhões teriam sido efetivamente quitados. No segundo semestre de 2025, o publicitário Thiago Miranda, apontado como um dos intermediários das transações financeiras, passou a cobrar o banqueiro de maneira incisiva em razão de parcelas que estariam em atraso.

Possíveis reuniões e contatos diretos

Os registros iniciais de interações via mensagem de texto entre Flávio e Vorcaro datam de 20 de agosto de 2025, conforme o material analisado pela polícia. Na ocasião, o financista questionou se “21 pode ser”, obtendo como resposta do senador a confirmação “Blz”, acompanhada de uma figurinha digital do ex-presidente norte-americano Donald Trump. Na sequência, o diálogo seguiu com manifestações descontraídas do banqueiro e o aviso do parlamentar de que já estava “A caminho”.

- Publicidade-

Para a equipe de investigação, o teor da conversa serve como indício consistente de um encontro físico entre os dois personagens na mesma data. Relatórios posteriores indicam que outras reuniões teriam sido agendadas nos meses seguintes, incluindo um jantar proposto pelo senador para novembro daquele ano, reunindo o empresário e integrantes da equipe responsável pelo filme.

Preocupação com repercussão e inadimplência

Em setembro de 2025, o avanço dos débitos pendentes levou o senador a procurar o dono do Banco Master novamente. Em um registro de áudio recuperado pelos investigadores, o parlamentar expressa apreensão com os impactos negativos que eventuais calotes poderiam gerar para a reputação internacional do projeto.

“É porque tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e fico preocupado aqui com o efeito ao contrário do que a gente sonhou pro filme, né? Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim, né?”, argumentou o parlamentar no áudio citado pela autoridade policial.

Meses depois, às vésperas da deflagração da Operação Compliance Zero, novas tentativas de contato telefônico foram registradas entre as partes, com o banqueiro justificando estar em um templo religioso e o senador reforçando laços de aliança política e pessoal.

Movimentações financeiras nos Estados Unidos

Paralelamente às cobranças, a investigação da Polícia Federal passou a rastrear o destino do capital transferido. Dados obtidos por meio de um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) identificaram pelo menos sete remessas efetuadas pela empresa Entre Investimentos para o fundo norte-americano Havengate Development Fund LP, totalizando montante superior a US$ 12 milhões.

- Publicidade-

Segundo os investigadores, o fundo de investimento permaneceu formalmente ativo, mas sem movimentações operacionais públicas por cerca de quatro anos, até receber o primeiro aporte milionário vindo do Brasil em fevereiro de 2025, destinado oficialmente ao suporte da produção cinematográfica.

A estrutura jurídica do Havengate está sob a responsabilidade do advogado de imigração Paulo Calixto, figura apontada como próxima a Eduardo Bolsonaro. A corporação busca esclarecer se parte dessas remessas financeiras para o exterior também teria servido para custear despesas de permanência do ex-deputado em solo norte-americano.

Diálogos sobre remessas internacionais

No início de 2025, capturas de tela obtidas de conversas entre Thiago Miranda e Eduardo Bolsonaro revelaram tratativas logísticas sobre o envio de capital para o exterior. Nos trechos destacados pela Procuradoria-Geral da República, o ex-parlamentar ponderava sobre as dificuldades burocráticas de transferências em grandes volumes a partir de contas corporativas brasileiras.

- Publicidade-

“O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos”, indicava a mensagem encaminhada.

Disputa por documentação corporativa

Como desdobramento das diligências, a Polícia Federal requisitou formalmente a apresentação de toda a documentação societária, contábil, fiscal e contratual vinculada à Go Up Entertainment LLC, produtora associada ao filme. Em resposta aos pedidos, Michael Davis, apontado como sócio majoritário da companhia, argumentou que os arquivos mantidos em território norte-americano não deveriam ser repassados diretamente aos órgãos brasileiros sem a observância estrita dos canais oficiais de cooperação jurídica internacional.

Para os investigadores, o acesso a esses papéis é considerado indispensável para mapear de forma definitiva a origem dos valores, o caminho percorrido pelo dinheiro e a identificação dos verdadeiros beneficiários finais dos recursos.

Ambos os parlamentares envolvidos, Flávio e Eduardo Bolsonaro, têm negado publicamente a existência de irregularidades ligadas ao modelo de financiamento adotado para o longa-metragem. O inquérito tramita inserido no escopo mais amplo de investigações conduzidas a partir das apurações do caso envolvendo o Banco Master.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

Compartilhe esta notícia