Propostas para ampliar o controle de emendas parlamentares e obras públicas

Marcelo Borges
7 min. de leitura
Apenas três estados brasileiros divulgam inform...

As emendas parlamentares consolidaram-se como um dos temas centrais no debate público brasileiro contemporâneo. Diante do encorpamento dos recursos disponíveis e da fragilidade nos mecanismos de controle, episódios envolvendo saques em espécie, superfaturamento de contratos, suspeitas de desvios, nepotismo e conflitos de interesse ganham espaço recorrente nos noticiários de todo o país.

A gravidade da situação é respaldada por dados oficiais. Em julho, uma auditoria conduzida pelo Tribunal de Contas da União (TCU) apontou falhas em 82% das Emendas Pix analisadas, revelando ausência de transparência, falta de rastreabilidade, pagamentos sem comprovação adequada e entraves na execução dos projetos.

Para o ano de 2026, a movimentação financeira impressiona: apenas os deputados estaduais terão à disposição cerca de R$ 13 bilhões para distribuir em emendas nos estados, o que representa um crescimento de 13% em relação ao ciclo anterior.

Monitoramento rigoroso em grandes obras públicas

A vulnerabilidade inerente às emendas parlamentares exige padrões elevados de integridade e fiscalização. No mesmo patamar de atenção estão as obras públicas executadas no Brasil, que habitualmente envolvem montantes expressivos, restrição de empresas capacitadas para intervenções complexas e prazos de execução prolongados por meses ou anos. Esses fatores elevam consideravelmente os riscos de fraudes, sobrepreço e irregularidades estruturais.

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O Índice de Transparência e Governança Pública ilustra a dimensão do desafio enfrentado pelo país. De acordo com o levantamento referente a 2025, apenas um em cada seis estados brasileiros divulga informações completas sobre as emendas parlamentares estaduais, enquanto pouco mais da metade disponibiliza os planos de trabalho referentes às Emendas Pix.

O cenário mantém-se restritivo no setor de infraestrutura. Apenas três unidades da federação publicam dados abrangentes sobre a execução física de seus empreendimentos, e somente cinco tornam públicas informações relativas à execução financeira, conforme aponta o mesmo índice.

Em julho, o Tribunal de Contas da União (TCU) divulgou uma auditoria que identificou irregularidades em 82% das Emendas Pix analisadas. Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Diretrizes para gestores e planos de governo

A preocupação com a transparência também mobiliza órgãos de controle. O Radar Nacional da Transparência Pública, ferramenta desenvolvida pela Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon), destacou as categorias de emendas parlamentares e obras públicas entre os piores índices de desempenho informacional nos estados ao longo de 2025.

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Diante desse contexto, o tema foi incorporado à “Agenda de Transparência e Combate à Corrupção nos Estados (2027-2030)”. O documento, lançado recentemente, reúne 40 propostas estruturadas para subsidiar a elaboração de planos de governo por candidatos aos cargos executivos e legislativos.

O conteúdo programático divide-se em sete eixos voltados a responder às principais demandas da sociedade, contemplando desde barreiras anticorrupção e dados abertos até estratégias de enfrentamento ao crime organizado e pautas climáticas.

As diretrizes voltadas especificamente ao aperfeiçoamento da gestão de recursos públicos estruturam-se em cinco frentes principais:

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1. Centralização de dados em portal de obras públicas

A recomendação prevê a criação e a manutenção contínua de um portal unificado O ambiente deve disponibilizar bases em formato aberto com histórico de alterações contratuais, fontes de financiamento, dados dos responsáveis técnicos, localização georreferenciada, registros fotográficos, montantes pagos, relatórios de medição, aditivos, justificativas para eventuais paralisações, estudos de impacto ambiental e canais diretos para denúncias.

2. Fortalecimento da integridade institucional

Sugere-se a consolidação de estruturas de governança nos órgãos encarregados de projetar, contratar, executar e fiscalizar obras, com foco prioritário em infraestrutura, transportes, habitação, saneamento e logística. A proposta determina a integração de processos de auditoria, ouvidoria, correição e transparência sob a coordenação do Órgão Central de Controle Interno do Estado.

3. Transparência em repasses federais

O texto estabelece a publicação detalhada de recursos direcionados ao estado por meio de emendas de senadores e deputados federais. Devem constar o nome do parlamentar, legenda partidária, tipologia da verba, órgão beneficiado, cronograma de execução, valores empenhados, liquidados e pagos, além dos processos licitatórios e eventuais convênios firmados com a União.

4. Detalhamento de emendas estaduais

Demanda-se ampla publicidade sobre as emendas apresentadas por deputados estaduais, englobando as normativas orçamentárias previstas na Lei Orçamentária Anual (LOA). O acompanhamento deve expor autoria partidária, objeto do gasto, órgãos de destino, prestadores de serviços, cronogramas de trabalho e movimentações financeiras correspondentes.

5. Alinhamento com normas de controle e STF

A última diretriz propõe a adaptação das regras estaduais de execução orçamentária às diretrizes da Lei Complementar nº 210/2024 e às decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF). O objetivo é assegurar a rastreabilidade integral dos montantes, respaldada por auditorias periódicas e fiscalização ativa por parte dos conselhos de políticas públicas.

Impacto limitado nas políticas públicas

Em debate recente veiculado na rádio CBN, o gerente de Pesquisa e Advocacy da Transparência Internacional – Brasil, Guilherme France, apontou que o principal entrave do modelo atual reside na baixa efetividade dos recursos aplicados. “O que a gente tem visto, por meio de pesquisas muito bem embasadas, é que as emendas parlamentares não têm produzido resultados eficazes em termos de políticas públicas. Os municípios que mais recebem recursos para a saúde, por exemplo, não registram melhorias dos indicadores”, pontuou.

Para o especialista, o período eleitoral representa uma oportunidade para rediscutir a destinação de verbas públicas e exigir maior compromisso dos candidatos com a entrega de resultados efetivos à população na ponta final do serviço público.

Os riscos de fraudes, sobrepreços, desvios e outras irregularidades em grandes obras públicas é grande – por isso elas precisam ser bem monitoradas e fiscalizadas. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Fonte:: transparenciainternacional.org.br

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