A Anthropic divulgou um relatório detalhado no qual descreve como atores maliciosos usaram seu sistema de inteligência artificial, chamado Claude, para diversas atividades ilícitas. Entre os casos apontados estão operações de vigilância patrocinadas por Estados, campanhas de desinformação, apoio ao desenvolvimento de armamentos e fraudes em plataformas digitais, alimentando a preocupação crescente com os riscos associados à rápida evolução e acessibilidade dessas ferramentas tecnológicas em todo o mundo.
O documento recém-publicado destaca diferentes episódios nos quais agentes de variados perfis tentaram burlar as diretrizes de segurança da empresa para atingir objetivos geopolíticos, militares ou comerciais. Os episódios ilustram os desafios multifacetados que as empresas desenvolvedoras de sistemas avançados enfrentam para impedir o uso nocivo de suas tecnologias em cenários de conflito e instabilidade internacional.
Programa de espionagem no Mali
Um dos casos mais complexos descritos no relatório ocorreu em Bamako, capital do Mali, onde um consultor de tecnologia colaborava com o serviço de inteligência estatal do país, atualmente controlado pela junta militar local. De acordo com a investigação, o profissional utilizou o recurso Claude Code para desenvolver um sistema de vigilância batizado de “Lakana 360”. A ferramenta foi projetada para monitorar aproximadamente 25 milhões de cartões SIM pertencentes à rede móvel nacional.
Segundo a Anthropic, a aplicação desenvolvida possui capacidades avançadas que incluem a interceptação de chamadas telefônicas, mensagens de texto e tráfego de voz, além da identificação biométrica de pessoas pela voz, mesmo que os alvos troquem constantemente de chip. O sistema também seria capaz de detectar o uso de criptografia e redes privadas virtuais, as chamadas VPNs. A empresa informou que não conseguiu desativar remotamente essa aplicação específica.
Desenvolvimento de drones suicidas na Rússia
Em outro ponto do relatório, a companhia apontou que uma pequena equipe de desenvolvedores na Rússia utilizou o sistema de IA para criar softwares voltados à operação de drones autônomos do tipo kamikaze. O enxame de equipamentos voadores não tripulados foi programado com o auxílio da tecnologia para selecionar alvos de maneira autônoma e executar ataques sem a necessidade de intervenção ou tomada de decisão final por parte de um operador humano.
Os desenvolvedores envolvidos relataram ter recebido financiamento de programas de pesquisa governamentais e militares russos. No entanto, a análise conduzida pela Anthropic concluiu que se tratava de um grupo independente que buscava recursos, e não de uma operação oficial direta do governo daquele país.
Tentativa de fabricação de mísseis no Iêmen
As investigações também revelaram a atuação de um grupo localizado no norte do Iêmen, que recorreu ao Claude Code para obter assistência técnica na fabricação de armamentos complexos. A ferramenta de inteligência artificial colaborou na concepção de softwares para foguetes guiados, elaborou projetos estruturais para um míssil de longo alcance e participou do desenvolvimento teórico de um veículo planador hipersônico.
Apesar do uso da tecnologia, a Anthropic afirmou que não há evidências concretas de que o grupo tenha conseguido concluir a construção de uma arma funcional. Registros indicam que os envolvidos chegaram a realizar um teste com um foguete, mas o experimento aparentemente fracassou, já que posteriormente retornaram à plataforma de IA para consultar e tentar identificar falhas técnicas no projeto.
Operações de propaganda e desinformação na França
No campo da desinformação em massa, a empresa rastreou uma campanha coordenada até a agência de publicidade francesa LKM Company. Com o auxílio do Claude, foram produzidos em larga escala artigos de teor político direcionados a cerca de 70 sites de notícias falsas, operando em aproximadamente 20 idiomas diferentes e gerando um total de pelo menos 8.913 publicações.
Para conferir falsa credibilidade às páginas, cada site contava com a assinatura de um jornalista fictício e uma conta associada na rede social X, que eram impulsionadas por centenas de perfis falsos automatizados com comentários simulando interações humanas reais. As campanhas de influência identificadas tiveram como principais alvos o Brasil, os Estados Unidos e a França.
Campanhas de influência e aplicativos de relacionamento na Ásia
Outra frente identificada envolveu os Emirados Árabes Unidos, em uma ação direcionada contra a Irmandade Muçulmana e especialistas das Nações Unidas que criticavam o suposto papel de Abu Dhabi no conflito do Sudão. Os autores utilizaram o sistema de inteligência artificial para redigir relatórios políticos, criar conteúdos persuasivos para redes sociais e fabricar depoimentos públicos.
Paralelamente, na China, um estúdio de tecnologia sediado no país operava uma rede clandestina com mais de 20 aplicativos de namoro que prometiam interações com pessoas reais, mas que eram controlados de forma oculta pelo Claude. Em apenas duas semanas de análises realizadas em abril, a Anthropic detectou mais de 4.700 personagens virtuais distintos interagindo com pelo menos 25 mil usuários reais, resultando no envio de cerca de 2,36 milhões de mensagens automatizadas.
Para manter a ilusão de autenticidade perante as vítimas dos golpes, a rede misturava operadores humanos reais com os robôs digitais em uma proporção estimada de um funcionário para cada três personalidades geradas por inteligência artificial, sendo encarregados de realizar tarefas que o sistema automatizado não conseguia concluir, como chamadas de vídeo.
Fonte:: estadao.com.br


