Brics debate tensões internacionais e apoia protagonismo do Brasil na ONU

Marcelo Borges
7 min. de leitura
Foto: © Índia/Divulgação via REUTERS/Proibida Reprodução

Os líderes e representantes que participaram da Cúpula do Brics, realizada em Nova Delhi, capital da Índia, manifestaram profunda apreensão com a escalada dos conflitos no Oriente Médio. O grupo também direcionou críticas severas à imposição de tarifas unilaterais no comércio exterior e reforçou o apoio político para que o Brasil conquiste maior relevância institucional no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O posicionamento oficial foi consolidado na declaração final do encontro, um documento batizado de “Construindo para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”, tornado público aos meios de comunicação globais.

O Brics atualmente é composto por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Juntas, essas 11 nações respondem por uma fatia expressiva de 39% da economia mundial, congregam 48,5% da população global e respondem por 23% de todo o intercâmbio comercial do planeta. Vale lembrar que, durante o ano de 2025, a presidência rotativa do bloco esteve sob a responsabilidade do governo brasileiro, com a cúpula daquele período sediada no Rio de Janeiro.

Cenário geopolítico entre Irã e Estados Unidos

Um dos temas centrais que geravam expectativa prévia sobre a cúpula em solo indiano era a forma como o bloco se posicionaria diante do conflito deflagrado no Oriente Médio em fevereiro, quando forças dos Estados Unidos e de Israel desfecharam ataques contra o território iraniano sob a justificativa de conter um suposto programa de desenvolvimento de armas nucleares — alegações veementemente rejeitadas pelo governo do Irã.

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Como forma de retaliação às ofensivas militares, o Irã direcionou investidas contra os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita. Ambos os países mantêm alinhamento estratégico com Washington e integram o próprio Brics.

O documento diplomático aprovado, estruturado com 35 páginas e 140 parágrafos, aborda a crise de maneira ampla, sem restringir as menções estritamente à zona do Golfo Pérsico. O Parágrafo 28, por exemplo, evita o uso explícito da palavra guerra e abstém-se de citar nominalmente os governos envolvidos diretamente nas hostilidades:

“Expressamos profunda preocupação com a contínua escalada das tensões no Oriente Médio/Ásia Ocidental e, recordando nossas respectivas posições nacionais, conclamamos ao exercício da máxima contenção, bem como à abstenção de ações que possam agravar ainda mais a situação.”

Na praxe diplomática multilateral, a omissão de nomes de países específicos funciona como uma estratégia de consenso para viabilizar a redação de entendimentos comuns entre nações com agendas externas heterogêneas.

A cúpula em Nova Delhi reuniu figuras centrais da política internacional, como o primeiro-ministro indiano e anfitrião Narendra Modi, além dos presidentes Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia), Cyril Ramaphosa (África do Sul) e Masoud Pezeshkian (Irã). Os Emirados Árabes Unidos foram representados pelo príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Sheikh Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, enquanto a delegação brasileira teve à frente o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

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Pleito por mudanças estruturais na ONU

Outro eixo de destaque nas negociações foi a necessidade de reforma na arquitetura da Organização das Nações Unidas (ONU). O bloco defendeu alterações para tornar o Conselho de Segurança mais democrático, representativo, legítimo e eficiente, ampliando de forma justa a participação de nações em desenvolvimento.

O Conselho de Segurança constitui o principal pilar global para a preservação da paz internacional. Atualmente, é composto por 15 membros, sendo apenas cinco permanentes e detentores do poder de veto: Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França.

Enquanto o Brasil busca há décadas uma cadeira permanente no órgão, o documento reforçou o endosso formal de duas potências detentoras de assentos definitivos:

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“China e Rússia, como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, reiteram seu apoio às aspirações do Brasil e da Índia de desempenhar um papel maior na ONU, incluindo seu Conselho de Segurança.”

Apesar da sinalização positiva, o texto evitou estipular prazos ou cravar a garantia explícita de assentos permanentes para os postulantes sul-americano e asiático.

Críticas ao protecionismo e barreiras alfandegárias

As diretrizes econômicas do documento também refletiram o descontentamento dos países emergentes com políticas protecionistas recentes, sinalizando forte oposição à imposição de tarifas unilaterais no comércio global.

“Manifestamos sérias preocupações com o aumento de medidas tarifárias e não tarifárias unilaterais que distorcem o comércio e são incompatíveis com as regras da Organização Mundial do Comércio”, aponta um trecho da ata.

Ainda que o texto preserve a praxe de não citar governos ou líderes nominalmente, a medida faz referência velada às posturas adotadas pelos Estados Unidos sob a administração de Donald Trump, iniciada em 2025. O Brasil, assim como gigantes asiáticos como China e Índia, figurou entre os principais alvos das sobretaxas comerciais impostas pelo mercado norte-americano.

Uso de moedas locais e transações transfronteiriças

No campo monetário, a declaração sinalizou avanços graduais em direção a mecanismos práticos e eficientes de pagamentos transfronteiriços utilizando moedas locais dos países membros. Contudo, os líderes descartaram, ao menos no atual estágio, qualquer avanço concreto voltado à criação de uma moeda unificada do Brics ou a uma proposta institucional de desdolarização total do comércio internacional.

Enfrentamento às disparidades globais

O combate à pobreza e às assimetrias sociais também ganhou espaço de destaque na cúpula. No décimo quinto parágrafo do documento final, os signatários pontuaram que a erradicação da miséria em todas as suas esferas — com ênfase na superação da extrema pobreza — permanece como o maior obstáculo global a ser superado e configura requisito básico para alcançar o desenvolvimento sustentável em escala planetária.

A pauta incorporou formalmente a iniciativa conjunta apresentada pelo Brasil e pela África do Sul para a criação de um painel internacional voltado especificamente ao monitoramento e combate às desigualdades estruturais.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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