Arquivos da Justiça guardam muitas histórias envolvendo o futebol

Marcelo Borges
7 min. de leitura
Foto: © Diego Carvalho/TJ-RJ

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) conserva em seus arquivos diversas narrativas que integraram processos judiciários, incluindo o furto da Taça Jules Rimet, que estava na antiga sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), na Rua da Alfândega, no centro do Rio. As informações guardadas também incluem disputas relacionadas ao famoso álbum de figurinhas dos tricampeões mundiais da Copa de 1970, além do sequestro do pai do jogador Romário.

“Temos algumas raridades em nosso acervo, e em épocas de Copa do Mundo, podemos afirmar que armazenamos uma coleção de processos referentes à competição e aos jogadores que deixaram sua marca na nossa história”, comentou o diretor da Divisão de Gestão de Documentos, Gilberto de Souza Cardoso.

Entre os casos mais notáveis está o furto da Taça Jules Rimet, que foi definitivamente entregue ao Brasil após as conquistas mundiais de 1958, 1962 e 1970. O troféu foi roubado em dezembro de 1983, da sede da CBF, e uma das particularidades do processo sobre a Taça é a forma como ela foi catalogada no acervo.

Gilberto destacou que o documento que resume todo o andamento do caso, desde a investigação até a condenação dos culpados, ficou por um tempo sem uma identificação adequada, refletindo de certa forma o azar que acompanhou a história da taça. “Os autos do processo não apenas documentam o crime, mas também iludem a relação emocional que os brasileiros têm com a Copa do Mundo”, acrescentou.

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Para ele, a preservação desses documentos é fundamental para resgatar histórias que ilustram diferentes períodos do Brasil. “São registros que evidenciam a trajetória do futebol, das mulheres, da escravidão, entre outros temas. Histórias vivas que apenas processos judiciais conseguem contar.”

Memória das Copas

Outro destaque do acervo é o processo referente ao álbum de figurinhas “Heróis do Tri”, lançado em 1988 em homenagem às conquistas do Brasil nas copas de 1958, 1962 e 1970. O álbum foi produzido sem autorização dos atletas retratados, levando a ações judiciais desencadeadas por ex-jogadores como Jairzinho, Carlos Alberto, Altair, Amarildo, José Ferreira Franco, Moacir e Joel contra a CBF e a Editora Abril, por uso não autorizado de suas imagens.

“Esse é um dos processos mais significativos em nossa coleção, tanto pela relevância histórica quanto pela importância jurídica”, afirma Marileia Salazar, chefe de serviço do TJRJ. Ela ressalta que esses casos ajudaram a fortalecer a proteção ao direito de imagem dos atletas e influenciaram a evolução da legislação esportiva brasileira, que foi consolidada anos depois pela Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998). “Isso é história. Esses processos garantiram aos jogadores os direitos sobre a própria imagem.”

O acervo também contém o processo movido por Zico contra Romário, em 1999, devido a declarações e caricaturas consideradas ofensivas que foram exibidas pelo ex-atacante em seu negócio. A ação foi julgada procedente em favor de Zico, gerando desdobramentos judiciais significativos, conforme explica Tainara Weber, historiadora e auxiliar de documentação do Diged.

“Como torcedora do Internacional e fã do futebol, é muito gratificante trabalhar com registros que conferem visibilidade e preservam a memória das copas e de seus protagonistas. Esses registros mostram como os arquivos ajudam a compreender a relação entre o esporte e a sociedade brasileira, aproximando o público de sua própria história e da Justiça.”

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Entre os casos de maior repercussão está o processo referente ao sequestro do pai de Romário, ocorrido em 1994, pouco antes do tetracampeonato mundial. A comoção gerada pelo incidente mobilizou forças de segurança e recebeu ampla cobertura da mídia. “Esses documentos retratam a nossa história. É isso que torna este acervo tão significativo e fascinante”, ressalta Gilberto.

Nos autos judiciais, estão registradas informações que ajudam a entender os personagens, as mudanças nas carreiras dos atletas e os contextos históricos do futebol e das copas em diferentes épocas.

O sequestro de Edevair de Souza Faria, pai do jogador Romário, aconteceu em 2 de maio de 1994, na Vila da Penha, Zona Norte do Rio. Os sequestradores exigiram um resgate de 7 milhões de dólares. A vítima foi libertada ilesa pela polícia após seis dias de cativeiro, sem que houvesse pagamento.

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O desfecho do caso envolveu bastidores tensos que quase alteraram o destino da seleção brasileira na véspera da Copa do Mundo nos Estados Unidos.

Três homens armados abordaram Seu Edevair enquanto ele saía de seu bar, “Garota do Quitungo”. Na época, Romário jogava no FC Barcelona e era o principal jogador do Brasil. Ao tomar conhecimento do sequestro, ele ameaçou abandonar a seleção e não participar do mundial caso seu pai não fosse libertado, afirmando que sua prioridade era a família.

O caso mobilizou o país e, além do forte aparato policial, até líderes do tráfico de drogas do Rio se envolveram em localizar a vítima, que eram fãs do craque.

O cativeiro foi descoberto em uma casa em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A polícia invadiu o local, prendeu os guardas e resgatou o pai do jogador com vida e sem pagamento de resgate.

Com a liberação de Seu Edevair, Romário seguiu para os Estados Unidos e se destacou como um dos principais jogadores da seleção no tetracampeonato mundial.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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