Especialistas em direitos humanos vinculados à Organização das Nações Unidas (ONU) emitiram um alerta severo nesta quinta-feira, dia 5, cobrando medidas enérgicas da comunidade internacional. O objetivo é evitar que Cuba acabe se transformando em uma “Gaza silenciosa”, cenário atribuído diretamente aos impactos severos decorrentes das sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos.
O governo norte-americano mantém um embargo histórico contra a ilha caribenha desde 1962. No entanto, o quadro humanitário e econômico deteriorou-se consideravelmente após a imposição de um bloqueio direcionado ao fornecimento de petróleo a Cuba, formalizado em janeiro a pedido do presidente Donald Trump.
De acordo com os relatores da ONU, a interrupção no fluxo de combustíveis e as demais restrições comerciais estrangularam a economia cubana, resultando em escassez generalizada de insumos e em recorrentes apagões em todo o território nacional — um problema estrutural que já contabiliza 11 blecautes de grandes proporções desde o início de 2024.
Setores vitais como geração de energia, transporte público, sistemas de irrigação e a prestação de serviços básicos encontram-se praticamente paralisados. Essa paralisia afeta de maneira desproporcional as parcelas mais frágeis da população, com destaque para mulheres, crianças, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade extrema.
“As consequências humanitárias já estão se tornando uma crise generalizada, ameaçando os direitos à saúde, à vida, à alimentação e ao desenvolvimento”, apontaram os especialistas no documento oficial.
No cotidiano de milhões de cubanos, tarefas fundamentais como conseguir água potável, garantir refeições diárias, locomover-se pela cidade ou encontrar condições adequadas de moradia tornaram-se obstáculos diários quase intransponíveis.
Representantes de agências da ONU que atuam diretamente em solo cubano também corroboraram o diagnóstico, enfatizando o risco iminente de agravamento da insegurança alimentar, além da falta crônica de medicamentos essenciais e produtos de higiene e primeira necessidade.
“A alimentação jamais deve ser usada como instrumento de pressão política. Medidas que privam deliberadamente uma população dos meios de subsistência violam as garantias mais básicas do direito à vida e minam a própria essência da dignidade humana”, reforçaram os especialistas em direitos humanos.
Diante da gravidade do cenário, o grupo exigiu que a administração dos Estados Unidos encerre imediatamente quaisquer atos hostiles ou ameaças contra a soberania cubana, revogando todas as restrições unilaterais consideradas incompatíveis com o direito internacional.
Os relatores também apelaram para que o Conselho de Segurança e a Assembleia Geral da ONU coloquem o tema em pauta com urgência, tratando a situação sob a ótica da preservação da paz e da segurança internacionais.
O comunicado foi elaborado de forma conjunta por diversos relatores especiais independentes do organismo internacional, incluindo autoridades com mandatos voltados para o direito ao desenvolvimento, o direito à alimentação adequada e a avaliação dos impactos negativos provocados por medidas coercitivas unilaterais.
Cabe ressaltar que esses especialistas atuam de maneira autônoma, nomeados pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, de modo que suas manifestações refletem análises técnicas independentes e não constituem necessariamente uma posição institucional consolidada das Nações Unidas.
Retrospecto histórico e endurecimento econômico
O embargo econômico e comercial mantido pelos Estados Unidos contra Cuba completou décadas, tendo tido início formal em 1962. A pressão econômica, contudo, ganhou novos contornos no início do ano, quando a gestão do presidente Donald Trump implementou travas adicionais para impedir o abastecimento regular de combustíveis à ilha.
Desde então, o governo norte-americano abriu exceção apenas para a entrada de um único petroleiro de bandeira russa, responsável por descarregar 100 mil toneladas de petróleo em março. Relatos indicam que esse montante foi integralmente consumido em poucas semanas.
A ofensiva diplomática e econômica de Washington também incluiu sanções mais duras contra empresas estatais de Cuba, o que gerou um efeito cascata que levou companhias estrangeiras a encerrarem suas atividades comerciais no país por receio de punições secundárias.
No encerramento do mês de junho, o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, veio a público para declarar que os canais de diálogo e as negociações com o governo norte-americano seguiam estagnados, sem qualquer avanço diplomático visível.
Enquanto o impasse político persiste e a pressão externa se intensifica, o governo de Havana tem buscado alternativas internas, iniciando a implementação gradual de reformas voltadas para o livre mercado em uma tentativa desesperada de injetar dinamismo na economia nacional.
Fonte:: estadao.com.br


