Investigações conduzidas pela Polícia Federal revelam que o grupo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-proprietário do Banco Master, mantinha esquemas de acesso clandestino a dados sigilosos. Relatórios enviados ao Supremo Tribunal Federal apontam que a estrutura paralela conseguia informações privilegiadas de órgãos como o Ministério Público Federal, a própria corporação policial e até de registros vinculados à Interpol.
O material integra um documento elaborado pela corporação no final de fevereiro, remetido ao ministro André Mendonça. O magistrado atua como relator da Operação Compliance Zero, investigação que apura fraudes bilionárias atribuídas à gestão do Banco Master. O levantamento do sigilos ocorreu após solicitação formal apresentada pelo presidente do STF, ministro Edson Fachin.
Estrutura paralela e pagamentos mensais
De acordo com os investigadores, o esquema funcionava por meio de uma célula batizada internamente de “A Turma”. Trata-se de uma suposta rede de vigilância, coerção e contrainteligência financiada pelo próprio banqueiro, que destinava cerca de R$ 1 milhão mensalmente para a manutenção da atividade ilícita.
Entre os principais operadores apontados está Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado nos autos como “Felipe Mourão” ou “Sicário”. A investigação aponta que ele foi contratado para burlar a segurança de sistemas institucionais, realizando consultas recorrentes e não autorizadas em investigações em andamento no Ministério Público Federal, polícias civis e federais, além do Banco Central.
O inquérito reúne centenas de páginas com transcrições e registros de conversas obtidas em aplicativos de mensagens. Segundo a polícia, o acesso era viabilizado mediante o uso indevido de credenciais funcionais pertencentes a terceiros, permitindo a extração de documentos sigilosos para blindar os alvos da operação.
Consulta a sistemas restritos
O relatório detalha episódios em que Vorcaro questionava sobre o andamento de inquéritos específicos. Minutos após os questionamentos, intermediários acionavam contatos dentro da rede de apoio para atender prontamente aos pedidos do banqueiro.
Um dos nomes citados no esquema é o de um policial federal aposentado, apontado como peça-chave na obtenção de dados sigilosos diretamente de bases do Ministério Público. As buscas frequentemente utilizavam filtros específicos, cruzando termos relacionados a instituições financeiras envolvidas em transações sob escrutínio, a exemplo de investigações sobre a tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília.
Os registros indicam que os operadores tentavam apagar vestígios das pesquisas nos sistemas internos para ocultar a autoria das consultas, prática interpretada pelos investigadores como clara tentativa de encobrir o vazamento de informações protegidas por segredo de justiça.
Conexões internacionais e Interpol
O nível de penetração da rede criminosa também chamou a atenção das autoridades pelo alcance internacional. Conforme as evidências reunidas, o grupo chegou a monitorar movimentações em organismos de cooperação policial internacional.
Em mensagens interceptadas, os investigados discutiam o andamento de checagens associadas a bancos de dados externos e mencionavam relatórios atribuídos a agências estrangeiras de investigação. Embora a representação da Interpol no Brasil tenha esclarecido que a identidade visual exibida nas telas não correspondia aos seus sistemas oficiais, a corporação avalia a hipótese de que as consultas tenham ocorrido por meio de plataformas integradas de outros países.
Contexto das investigações
O Banco Master foi alvo de liquidação pelo Banco Central no final de 2025, motivado por uma severa crise de liquidez e descumprimento de normas regulatórias. Negociações frustradas envolvendo a instituição e o Banco de Brasília geraram impactos financeiros bilionários, exigindo aportes expressivos para recompor o caixa da instituição pública.
Daniel Vorcaro foi alvo de mandados de prisão expedidos pela Suprema Corte no âmbito dos desdobramentos da investigação. A rede de apoio mantida pelo ex-banqueiro, além de focar na espionagem e na obtenção ilegal de dados, também é investigada por suspeitas de envolvimento em atos de coerção e intimidação contra pessoas consideradas ameaças aos interesses do grupo.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br


