Sentada no sofá da sala, a jovem cearense Biatriz Silva costumava assistir fascinada na televisão a lançamentos de foguetes. O entusiasmo era compartilhado de perto por seu pai, Carlos, vendedor de móveis, que também nutria grande admiração por produções cinematográficas do gênero espacial como o filme Interestelar. Foi com o incentivo dele e de sua mãe, a dona de casa Leidiana, que a menina começou a cultivar o hábito de observar o firmamento e compreender que a dedicação aos estudos seria o principal caminho para ampliar suas oportunidades no mundo.
Aos 17 anos, Biatriz empreendeu uma viagem internacional rumo a Hanói, capital do Vietnã, para integrar a delegação nacional na 19ª Olimpíada Internacional de Astronomia e Astrofísica (IOAA). Sendo a única representante feminina entre os cinco estudantes do Brasil selecionados para o torneio — considerado um dos mais rigorosos e prestigiados do planeta para jovens talentos da ciência —, a adolescente encara o desafio em uma competição que reúne dezenas de equipes de todas as regiões globais.
Moradora do bairro Pici, na periferia de Fortaleza, Biatriz cursa o terceiro ano do ensino médio e construiu uma sólida trajetória acadêmica. Sua paixão pela disciplina se traduziu em dedicação prática, culminando na conquista de uma medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Astronomia em 2023. Agora, ela busca repetir o desempenho de excelência em solo vietnamita, onde enfrentará quatro baterias de avaliações rigorosas englobando conhecimentos teóricos avançados, interpretação de dados científicos, manuseio de telescópios e provas em planetário antes de retornar ao território brasileiro.
“Eu tenho um caderno exclusivo onde estão anotadas mais de 380 estrelas e eu decoro também as posições”, relata a estudante sobre sua rotina minuciosa de preparação.
O destaque obtido ainda quando estudava em uma instituição da rede pública abriu portas para uma bolsa de estudos em um colégio voltado para a preparação intensiva com foco no ingresso no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), alimentando o sonho de cursar engenharia aeroespacial. Apesar da exigência acadêmica, Biatriz relata manter uma rotina equilibrada, conciliando os livros com momentos de lazer entre amigos e o gosto por desenhar, provando que a ciência caminha lado a lado com sua adolescência.
Questionada sobre sua preferência em meio à imensidão celeste, a jovem aponta Alchiba, localizada na constelação do Corvo a aproximadamente 49 anos-luz da Terra, como sua favorita. “É porque o Corvo fica numa localização muito boa. É a estrela alfa e era a mais brilhante”, explica. A vaga na delegação nacional exigiu superação em uma disputa acirrada contra cerca de 300 concorrentes de todo o país: “Foi árduo, mas é muito gratificante”.
Expectativa da delegação nacional
Além de Biatriz, outros quatro jovens talentos compõem o grupo que representa o Brasil no Vietnã, todos compartilhando a expectativa pela rica troca cultural e científica com estudantes estrangeiros de diferentes origens e idiomas.
A delegação conta com outros três representantes fortalezenses: Jailson Henrique Godeiro Neto, de 17 anos, Arthur Alencar Spuri, de 16 anos, e Isaac Victor de Araújo Santos, de 16 anos. O quinto integrante do time é Eyke Cardoso de Souza Torres, de 17 anos, natural do município de Ourilândia do Norte, no Pará.
“É uma experiência que eu vou levar para minha vida toda. É muito gratificante ter essa oportunidade, principalmente pelos desafios que envolveram chegar até aqui”, destacou Eyke Torres sobre a jornada até a etapa internacional, que conta com 67 equipes inscritas.
Para alcançar a classificação, os estudantes brasileiros foram submetidos a um processo seletivo rigoroso conduzido pela Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica. Alunos do ensino médio precisam alcançar nota igual ou superior a 7 no exame nacional do ano anterior para pleitear uma vaga em competições internacionais e latino-americanas, enquanto estudantes do 9º ano do ensino fundamental devem atingir pontuação mínima de 9.
Os aprovados nessa primeira fase avançam para uma série de três exames online de nível aprofundado. Na sequência, os 45 melhores colocados participam de treinamentos intensivos e avaliações presenciais eliminatórias, processo que culmina na seleção final dos cinco jovens encarregados de representar a bandeira brasileira no exterior.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br


