Estudo aponta que parto cesáreo eleva risco de câncer de placenta após mola

Marcelo Borges
7 min. de leitura
Foto: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Mulheres que já passaram por um parto cesáreo apresentam um risco 45% maior de desenvolver neoplasia trofoblástica gestacional, uma forma rara de câncer que se origina a partir de células placentárias e se desenvolve no interior do útero. A constatação faz parte de uma investigação científica conduzida por especialistas da Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Esta neoplasia representa a complicação mais severa decorrente da chamada mola gestacional. O quadro clínico se manifesta quando ocorre uma falha na fertilização entre os gametas feminino e masculino, gerando um tecido placentário atípico que pode se desenvolver sem a presença de um feto, cenário conhecido como mola completa, ou acompanhado por um feto inviável, na mola parcial.

Estatísticas médicas indicam que em até 20% das ocorrências, as células oriundas da mola gestacional acabam se fixando nas paredes uterinas e progridem para um quadro oncológico. No contexto brasileiro, a incidência da doença trofoblástica varia de um caso a cada 200 até 400 gestações, acumulando aproximadamente 2,9 mil novos diagnósticos de neoplasia por ano em todo o território nacional.

Anteriormente, a literatura médica já havia estabelecido que a probabilidade de evolução para o câncer se elevava em situações de mola completa, em pacientes com idade superior a 40 anos, em gestantes que apresentavam taxas expressivamente altas do hormônio HCG, ou naquelas que já haviam enfrentado episódios anteriores da condição associada a cistos ovarianos.

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Parceria internacional e abrangência da pesquisa

O impulso para a realização da investigação sobre a correlação entre a cicatrização da cesárea e o tumor placentário surgiu após a divulgação de um trabalho preliminar de escopo reduzido na Coreia do Sul, conforme detalha a médica obstetra Gabriela Paiva, líder da equipe investigativa.

A Maternidade Escola da UFRJ, integrada à rede HU Brasil e ao Sistema Único de Saúde (SUS), abriga o Serviço de Doença Trofoblástica Gestacional, reconhecido internacionalmente como o terceiro maior centro global de atendimento e estudo sobre a patologia. O setor chega a receber cerca de 80 pacientes semanalmente para acompanhamento clínico especializado.

“Com o volume expressivo de atendimento que mantemos aqui, percebemos a oportunidade de realizar uma avaliação com maior grau de precisão, considerando também a alta frequência de partos cirúrgicos no Brasil”, pontua Gabriela Paiva, que desenvolveu o projeto no âmbito de seu doutorado.

A médica obstetra Gabriela Paiva na Maternidade Escola da UFRJ.

A médica obstetra Gabriela Paiva liderou a pesquisa sobre a relação entre cesárea e neoplasia trofoblástica.

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O estudo foi viabilizado mediante uma colaboração técnico-científica com o Centro de Doença Trofoblástica da Nova Inglaterra, vinculado à Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. A análise contemplou prontuários de 2.904 pacientes assistidas tanto na instituição norte-americana quanto no hospital carioca no período compreendido entre 2002 e 2022. Desse total, 83,9% não possuíam histórico de intervenção cirúrgica prévia no útero, enquanto 468 mulheres tinham sido submetidas a pelo menos uma cesariana.

Os resultados demonstraram que entre as pacientes com histórico cirúrgico, 26,5% desenvolveram o câncer de placenta, índice superior aos 20,8% registrados no grupo sem intervenção anterior. O rigor metodológico permitiu o isolamento de variáveis e a confirmação de que a cirurgia atua como um fator de risco independente.

Como justificativa biológica, os pesquisadores formulam a hipótese de que a incisão cirúrgica no miométrio altera a resposta imunológica local, além de induzir alterações na rede de vasos sanguíneos e promover a fibrose tecidual.

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“A cicatriz da cesárea constitui uma zona de menor resistência anatômica no útero. Trata-se essencialmente de uma via facilitadora para que o tecido molar exerça maior capacidade de invasão, resultando na progressão para o tumor”, acrescenta a pesquisadora.

Impactos na saúde pública do Brasil

O professor e coordenador do ambulatório, Antônio Braga, enfatiza a relevância dos dados para a realidade nacional, visto que o país registra algumas das taxas mais elevadas de cesarianas em âmbito global. Enquanto a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta para um patamar ideal de 15% de nascimentos cirúrgicos, o índice brasileiro atinge a marca de 55%.

O professor e obstetra Antônio Braga destaca a importância de reavaliar os riscos associados ao parto cirúrgico.

“Este é um aspecto que precisa ser incorporado ao conjunto de riscos associados às mulheres que passam por cesarianas. O procedimento cirúrgico salva vidas e assegura a integridade materna e neonatal quando bem indicado, porém deve ser realizado de maneira criteriosa”, avalia o especialista.

Os autores argumentam que a neoplasia trofoblástica pós-molar deve passar a integrar o rol de complicações tardias decorrentes de cesarianas anteriores, ao lado de agravos já documentados na literatura médica, a exemplo da ruptura uterina, do acretismo placentário e da prematuridade.

Projeções estatísticas elaboradas pelo grupo indicam que uma eventual redução de 20 pontos percentuais na taxa atual de cesarianas no país, alcançando o patamar de 35%, seria capaz de evitar aproximadamente 177 novos casos do câncer anualmente, o que representaria uma retração de 6,1% na incidência geral da moléstia.

Apesar da correlação estatística identificada, a equipe médica não sugere a adoção de protocolos terapêuticos mais drásticos para pacientes com histórico cirúrgico que desenvolvam a doença. A recomendação central consiste em intensificar o monitoramento clínico e laboratorial logo após a constatação da mola gestacional.

Atualmente, a conduta terapêutica padrão para o tumor envolve a remoção do tecido uterino por meio de aspiração, a administração de ciclos de quimioterapia conforme a classificação de risco, e o seguimento rigoroso dos níveis séricos de HCG. A histerectomia, procedimento cirúrgico para a retirada total do útero, permanece restrita a circunstâncias clínicas específicas.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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