O ex-presidente da Argentina Alberto Fernández manifestou forte oposição à movimentação de alas da direita brasileira que buscam implementar políticas econômicas baseadas na gestão de Javier Milei. Em declarações recentes, o político peronista sustentou que o atual modelo implementado no país vizinho não deve servir de referência para nenhuma nação ao redor do globo.
Em entrevista concedida à Broadcast, o ex-mandatário argentino direcionou contundentes críticas à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), cujo núcleo econômico passou a enxergar o governo de Buenos Aires como um parâmetro a ser seguido. Segundo Fernández, caso estivesse na posição do senador brasileiro, sua prioridade seria fazer com que o eleitorado esquecesse a figura de Milei o mais rápido possível.
As reações surgem após Daniella Marques, conselheira econômica ligada à campanha de Flávio Bolsonaro, qualificar o presidente argentino como um exemplo notável, indicando que o grupo político avalia adotar medidas semelhantes no Brasil. De acordo com a representante, o parlamentar orientou sua equipe a estruturar propostas voltadas à revogação de tributos instituídos ou majorados durante o mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, além de levantar mais de mil normativas para eventual descarte. Daniella apontou a administração de Milei como um modelo de desburocratização, corte de impostos e retomada da capacidade de investimentos.
Ao ser questionado acerca da viabilidade de transpor o modelo argentino para o cenário brasileiro, Fernández foi categórico ao rejeitar a hipótese. O ex-presidente argumentou que a conjuntura do Brasil demonstra vigor econômico, com expansão de atividades, atração de investimentos, criação de postos de trabalho e surgimento de novos negócios, cenários que, segundo ele, diferem totalmente da realidade vivida na Argentina.
Críticas aos reflexos do modelo liberal
Mantendo proximidade com o governo brasileiro e laços estreitos construídos em 2023, período em que liderava a Casa Rosada, Fernández argumentou que a campanha de Flávio Bolsonaro deveria esclarecer de forma transparente os impactos decorrentes da adoção de diretrizes econômicas semelhantes às aplicadas em Buenos Aires.
O ex-presidente associou as diretrizes de Milei à retração nos serviços de saúde e educação públicas, ao incentivo indiscriminado às importações, ao fechamento de empresas de pequeno e médio portes e ao desemprego em massa. Para ele, sugerir tal alinhamento sem ponderar as consequências reflete falta de conhecimento aprofundado sobre a dinâmica social.
O cenário político atual, segundo a avaliação de Fernández, também encontra eco no discurso adotado por Donald Trump e por lideranças que se rotulam como agentes externos à política tradicional. Tais figuras, conforme sua análise, capitalizam o desgaste popular em relação à classe política convencional ao adotarem bandeiras ligadas à moralidade e à probidade.
Ainda em sua defesa à gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-chefe de Estado argentino classificou como injustas eventuais ondas de insatisfação contra o governo federal brasileiro, pontuando que o atual mandatário restabeleceu a solidez institucional do país e que a população deve valorizar o contexto de liberdades democráticas e oportunidades.
Panorama econômico argentino e relações diplomáticas
As divergências também alcançaram a esfera das relações diplomáticas entre as duas nações sul-americanas. Para o ex-presidente, os atritos verbais protagonizados por Javier Milei em relação ao governo brasileiro não expressam o sentimento geral da sociedade argentina. Ele relembrou que, mesmo durante a gestão de Jair Bolsonaro, com quem mantinha divergências ideológicas profundas — chegando a visitar Lula enquanto este estava detido —, os governos souberam preservar os laços bilaterais fundamentais, demonstrando, na sua visão, maior responsabilidade institucional.
Em contrapartida, fontes ligadas ao governo argentino ponderaram que, no caso de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro no Brasil, a gestão de Buenos Aires estaria aberta a fornecer assessoria técnica e compartilhar as diretrizes liberais adotadas no país, caso houvesse demanda formal por parte das autoridades brasileiras.
No âmbito macroeconômico, a Argentina registra indicadores divergentes sob a administração atual. Após registrar queda de 1,3% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2024, a economia avançou 4,4% no ano seguinte, com expectativa de crescimento de 3,5% para 2026, conforme projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI). A inflação mensal apresentou desaceleração acentuada na comparação com o final de 2023, fechando o acumulado em doze meses em patamares próximos de 33,5%, enquanto o resultado fiscal obteve superávit financeiro.
Em contrapartida, os índices de mercado de trabalho e o poder de compra da população continuam a gerar debates. O desemprego apresentou elevação no início de 2026, acompanhado por estimativas do setor privado que apontam retração nos postos de trabalho formais do setor privado e índices de pobreza que oscilam entre 30% e 32% no primeiro semestre, afetando milhões de cidadãos argentinos enquanto novos dados oficiais seguem em fase de apuração pelos órgãos competentes.
Fonte:: estadao.com.br


