Ex-presidente da Argentina critica propostas econômicas inspiradas em Javier Milei

Marcelo Borges
6 min. de leitura
Foto: Divulgação / Foto: Pedro Lima

O ex-presidente da Argentina Alberto Fernández manifestou forte oposição à movimentação de alas da direita brasileira que buscam implementar políticas econômicas baseadas na gestão de Javier Milei. Em declarações recentes, o político peronista sustentou que o atual modelo implementado no país vizinho não deve servir de referência para nenhuma nação ao redor do globo.

Em entrevista concedida à Broadcast, o ex-mandatário argentino direcionou contundentes críticas à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), cujo núcleo econômico passou a enxergar o governo de Buenos Aires como um parâmetro a ser seguido. Segundo Fernández, caso estivesse na posição do senador brasileiro, sua prioridade seria fazer com que o eleitorado esquecesse a figura de Milei o mais rápido possível.

As reações surgem após Daniella Marques, conselheira econômica ligada à campanha de Flávio Bolsonaro, qualificar o presidente argentino como um exemplo notável, indicando que o grupo político avalia adotar medidas semelhantes no Brasil. De acordo com a representante, o parlamentar orientou sua equipe a estruturar propostas voltadas à revogação de tributos instituídos ou majorados durante o mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, além de levantar mais de mil normativas para eventual descarte. Daniella apontou a administração de Milei como um modelo de desburocratização, corte de impostos e retomada da capacidade de investimentos.

Ao ser questionado acerca da viabilidade de transpor o modelo argentino para o cenário brasileiro, Fernández foi categórico ao rejeitar a hipótese. O ex-presidente argumentou que a conjuntura do Brasil demonstra vigor econômico, com expansão de atividades, atração de investimentos, criação de postos de trabalho e surgimento de novos negócios, cenários que, segundo ele, diferem totalmente da realidade vivida na Argentina.

- Publicidade-

Críticas aos reflexos do modelo liberal

Mantendo proximidade com o governo brasileiro e laços estreitos construídos em 2023, período em que liderava a Casa Rosada, Fernández argumentou que a campanha de Flávio Bolsonaro deveria esclarecer de forma transparente os impactos decorrentes da adoção de diretrizes econômicas semelhantes às aplicadas em Buenos Aires.

O ex-presidente associou as diretrizes de Milei à retração nos serviços de saúde e educação públicas, ao incentivo indiscriminado às importações, ao fechamento de empresas de pequeno e médio portes e ao desemprego em massa. Para ele, sugerir tal alinhamento sem ponderar as consequências reflete falta de conhecimento aprofundado sobre a dinâmica social.

O cenário político atual, segundo a avaliação de Fernández, também encontra eco no discurso adotado por Donald Trump e por lideranças que se rotulam como agentes externos à política tradicional. Tais figuras, conforme sua análise, capitalizam o desgaste popular em relação à classe política convencional ao adotarem bandeiras ligadas à moralidade e à probidade.

Ainda em sua defesa à gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-chefe de Estado argentino classificou como injustas eventuais ondas de insatisfação contra o governo federal brasileiro, pontuando que o atual mandatário restabeleceu a solidez institucional do país e que a população deve valorizar o contexto de liberdades democráticas e oportunidades.

Panorama econômico argentino e relações diplomáticas

As divergências também alcançaram a esfera das relações diplomáticas entre as duas nações sul-americanas. Para o ex-presidente, os atritos verbais protagonizados por Javier Milei em relação ao governo brasileiro não expressam o sentimento geral da sociedade argentina. Ele relembrou que, mesmo durante a gestão de Jair Bolsonaro, com quem mantinha divergências ideológicas profundas — chegando a visitar Lula enquanto este estava detido —, os governos souberam preservar os laços bilaterais fundamentais, demonstrando, na sua visão, maior responsabilidade institucional.

- Publicidade-

Em contrapartida, fontes ligadas ao governo argentino ponderaram que, no caso de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro no Brasil, a gestão de Buenos Aires estaria aberta a fornecer assessoria técnica e compartilhar as diretrizes liberais adotadas no país, caso houvesse demanda formal por parte das autoridades brasileiras.

No âmbito macroeconômico, a Argentina registra indicadores divergentes sob a administração atual. Após registrar queda de 1,3% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2024, a economia avançou 4,4% no ano seguinte, com expectativa de crescimento de 3,5% para 2026, conforme projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI). A inflação mensal apresentou desaceleração acentuada na comparação com o final de 2023, fechando o acumulado em doze meses em patamares próximos de 33,5%, enquanto o resultado fiscal obteve superávit financeiro.

Em contrapartida, os índices de mercado de trabalho e o poder de compra da população continuam a gerar debates. O desemprego apresentou elevação no início de 2026, acompanhado por estimativas do setor privado que apontam retração nos postos de trabalho formais do setor privado e índices de pobreza que oscilam entre 30% e 32% no primeiro semestre, afetando milhões de cidadãos argentinos enquanto novos dados oficiais seguem em fase de apuração pelos órgãos competentes.

- Publicidade-

Fonte:: estadao.com.br

Compartilhe esta notícia