Incerteza no festival de brasília mobiliza classe artística e gera impasse político

Marcelo Borges
6 min. de leitura
Foto: © Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O tradicional Festival de Brasília do Cinema Brasileiro enfrenta momentos de profunda incerteza e instabilidade. Nesta segunda-feira, diretores do evento receberam a informação de representantes do governo do Distrito Federal de que a 59ª edição do evento, programada inicialmente para ocorrer entre os dias 11 e 19 de setembro, não seria realizada.

Contudo, ainda no período da noite da mesma segunda-feira, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão, utilizou suas redes sociais para emitir uma determinação direcionada à Secretaria de Economia, exigindo que a pasta providencie de forma imediata os recursos financeiros necessários para a realização do festival. De acordo com o posicionamento oficial da chefe do Executivo distrital, o evento segue confirmado.

A edição de 2026 registrou um patamar histórico de interesse, alcançando um número recorde de inscrições com 1.928 obras cinematográficas pleiteando uma vaga na programação oficial. Mais de 80 produções audiovisuais já estão confirmadas, mobilizando centenas de profissionais do setor em todo o território nacional.

Em manifestação publicada em suas redes sociais, o diretor artístico do festival, Eduardo Valente, expressou preocupação e chegou a lamentar o cenário de instabilidade, fazendo um apelo público pela união de todos os agentes ligados à cadeia do cinema para assegurar a manutenção do evento cultural.

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“O que teremos para amanhã e depois? Difícil dizer, mas, seguramente, nem essa edição nem o futuro deste evento será determinado só por quem estava aqui lutando para organizá-lo. Teremos que ver o quanto as associações em geral, o setor do cinema, o público do Distrito Federal e até, por que não, outros festivais de cinema do país estarão dispostos a se juntar nessa briga”, escreveu Eduardo Valente.

Procurada para prestar esclarecimentos, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal optou por não se manifestar a respeito do impasse gerado em torno da programação.

Tristeza e revolta no setor audiovisual

Para Tiago de Aragão, diretor na região Centro-Oeste da Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro (API), a ameaça de cancelamento do evento está diretamente associada à crise instalada no governo do Distrito Federal após o escândalo financeiro envolvendo bilhões de reais em títulos públicos do Banco Master adquiridos pelo Banco de Brasília (BRB).

“São dezenas de profissionais empregados que já estavam trabalhando sem receber; são produtoras e cineastas de todo o país que reservaram o lançamento dos seus filmes para Brasília. A imagem que fica é de um governo do Distrito Federal que pode não honrar seus compromissos para sanar um rombo causado em uma história espúria que envolveu o BRB com o Banco Master e Vorcaro”, pontuou o dirigente.

Na visão de Tatiana Costa, presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), os desdobramentos ocorridos no Distrito Federal possuem potencial para reverberar negativamente sobre outros festivais cinematográficos espalhados pelo Brasil.

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“Só durante a ditadura que o Festival de Brasília não foi realizado. E o que isso significa simbolicamente? Para além das decisões financeiras, é uma decisão política do governo do Distrito Federal. Isso nos preocupa imensamente, porque não ameaça apenas o festival de Brasília, e sim todos os festivais de cinema do Brasil”, alertou.

Carina Bini, cineasta residente em Brasília, também externou sua apreensão. Na edição anterior do evento, a diretora subiu ao palco do Cine Brasília acompanhada de todo o elenco do filme “Mil Luas” para realizar a estreia perante o público local. Diante do cenário atual, ela lamenta a perspectiva de salas vazias no mês de setembro.

“O Festival de Brasília movimenta todo um mercado de trabalho, uma cadeia produtiva do audiovisual, traz pessoas para a cidade, ele é um evento que gera emprego, gera recurso para o Distrito Federal e é importante historicamente para o cinema brasileiro”, destacou a cineasta.

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Importância histórica do evento

Reconhecido como o festival de cinema mais longevo do país, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro chega em 2026 à sua 59ª edição. A mostra competitiva está prevista para acontecer tradicionalmente no Cine Brasília.

Criado em 1965, o evento consolidou-se ao longo das décadas como um dos principais espaços de debate e difusão da cinematografia nacional. Desde 2007, o festival detém o título de patrimônio imaterial do Distrito Federal. Historicamente, o evento só deixou de ser realizado presencialmente em duas ocasiões durante o período da ditadura militar, além da adaptação para o formato virtual adotada durante o período da pandemia de Covid-19.

Uma das principais características que diferenciam o festival de Brasília em relação a outros eventos do setor é a exigência de que as obras selecionadas para a competição sejam inéditas. Os vencedores de cada categoria recebem o tradicional Troféu Candango, uma homenagem aos operários e pioneiros que construíram a capital federal.

Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br

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