A trajetória turbulenta de Volodmir Zelenski em sua relação com Donald Trump serve como um importante panorama para compreender a dinâmica do presidente norte-americano em relação a aliados e adversários internacionais. Embora o Brasil esteja inserido em uma realidade geopolítica distinta da Ucrânia, o momento atual — em que o país pondera aproximações estratégicas com os Estados Unidos ou a manutenção de fortes laços com a China — evidencia que os riscos são elevados em ambas as direções.
O ceticismo histórico de Donald Trump em relação a parceiros tradicionais remonta a 1987. Naquele ano, o empresário visitou a União Soviética após adquirir uma grande quantidade de televisores para um hotel em Nova York, em uma transação intermediada por um estabelecimento ligado à KGB. No retorno aos Estados Unidos, Trump investiu quantias expressivas em anúncios em veículos como o Wall Street Journal, o New York Times e o Boston Globe, defendendo publicamente que o país abandonasse alianças tradicionais com nações europeias, o Japão e parceiros do Oriente Médio.
Anos mais tarde, durante seu primeiro mandato presidencial, em julho de 2019, Trump pressionou Volodmir Zelenski a instar o procurador-geral ucraniano a investigar Hunter Biden, filho de Joe Biden, que na época integrava o conselho da Burisma, uma das principais empresas de energia da Ucrânia. Em contrapartida à investigação, a administração norte-americana liberaria fundos de ajuda militar ao país europeu, que enfrenta ocupações parciais desde 2014.
Diante da recusa de Zelenski em ceder às pressões, o teor da conversa veio a público, resultando na abertura do primeiro processo de impeachment contra Trump pela maioria democrata na Câmara dos Representantes, embora a medida tenha sido posteriormente barrada pela maioria republicana no Senado.
Desde aquele episódio, as relações políticas permaneceram desgastadas. Paralelamente, investigações apontaram que hackers russos obtiveram acesso a dados da equipe de Hillary Clinton, enquanto perfis falsos em redes sociais ligados ao Kremlin atuaram em favor da eleição de Trump em 2016. Na fase de transição daquele pleito, assessores mantiveram contatos com representantes russos, o que gerou investigações por violação de leis relativas à condução de política externa por cidadãos particulares.
Recentemente, tensões semelhantes ressurgiram quando autoridades econômicas dos Estados Unidos, como o secretário do Tesouro Scott Bessent, tentaram viabilizar acordos que garantissem acesso a recursos minerais ucranianos, em moldes comparados por analistas à situação enfrentada pela Venezuela de Delcy Rodríguez em relação ao petróleo. Em meio a novos acordos comerciais internacionais que envolvem o setor energético e restrições a operações militares ucranianas contra refinarias russas, o governo de Kiev tem buscado manter sua autonomia estratégica.
A dependência tecnológica e militar da Ucrânia e de nações europeias em relação a sistemas de inteligência, redes de comunicação avançadas e equipamentos de defesa norte-americanos evidencia a vulnerabilidade gerada por alianças assimétricas. Tanto a Otan quanto lideranças isoladas enfrentam os reflexos dessa volatilidade diplomática, deixando evidente para países emergentes como o Brasil a necessidade de cautela extrema ao estabelecer parcerias com superpotências globais.
Fonte:: estadao.com.br


