O STF segue sem parecer com o Brasil

Marcelo Borges
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Nesta quarta-feira (29 de abril), o Senado fará a sabatina de Jorge Messias, indicado pelo presidente Lula para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Caso sua aprovação ocorra, conforme as movimentações políticas indicam, o Brasil perderá mais uma oportunidade histórica de avançar na democratização da mais alta Corte do país.

A crítica da Transparência Internacional – Brasil não se refere à trajetória individual, à competência jurídica ou à integridade do indicado. O problema é mais profundo: as escolhas sucessivas para o topo do sistema de justiça continuam a reproduzir um padrão restrito de poder. Esse padrão é caracterizado pela predominância de homens brancos, por trajetórias próximas ao centro do poder político e pela baixa abertura a experiências que representem a pluralidade da sociedade brasileira.

A composição dos tribunais constitucionais não é um detalhe protocolar ou uma questão identitária superficial. Ela está diretamente relacionada à própria natureza do Estado e ao significado que ele assume: se está voltado para o interesse público, para a garantia de direitos e para a accountability democrática, ou se perpetua uma estrutura histórica de privilégios concentrados.

Quando as nomeações sucessivas para o ápice do sistema de justiça reforçam um padrão homogêneo de poder manifestado em gênero, raça, trajetória social e vínculos pessoais, a mensagem emitida para a sociedade é clara: pertencimento, confiança política e proximidade a círculos decisórios ainda são mais valorizados do que a diversidade de experiências que compõem o Brasil real.

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A diversidade celebrada na cerimônia de posse do presidente Lula — especialmente na imagem histórica de sua ascensão à rampa ao lado de representantes da pluralidade brasileira — perde sua densidade política quando não se traduz em decisões estratégicas. Embora símbolos possuam sua importância, não substituem escolhas concretas de poder.

Cerimônia de posse do Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva em 1º de janeiro de 2023. (foto: Tânia Rego/Agência Brasil)

A diversidade não deve ser vista como um gesto simbólico, uma concessão identitária ou um mero adorno progressista. Para uma instituição que se compromete com a integridade pública, ela representa uma condição material necessária para que o Estado atenda ao interesse público, preste contas à sociedade e reconheça os direitos de grupos historicamente excluídos dos espaços de decisão reais.

Estados formados sob lógicas coloniais, patrimonialistas e excludentes tendem a manter, ao longo do tempo, arranjos de poder que concentram riqueza, direitos e a voz política. Nesses contextos, a corrupção não é vista apenas como uma anomalia do sistema, mas como um mecanismo funcional: acelera, lubrifica e protege as engrenagens da concentração.

Por causa disso, a corrupção estrutural se mostra extremamente resistente a reformas que sejam meramente punitivas ou morais. Ela não se refere apenas a desvios individuais, mas a um aparato estatal que continua a ser dominado quase exclusivamente pelos mesmos grupos sociais predominantes — enquanto mulheres, pessoas negras, povos indígenas e outros grupos historicamente marginalizados permanecem à margem dos espaços de decisão reais.

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A literatura clássica sobre controle da corrupção demonstra que avanços duradouros ocorrem quando há uma efetiva democratização do Estado. Estudos amplamente citados sobre reformas institucionais na Escandinávia, por exemplo, mostram que a redução consistente da corrupção não foi resultado de campanhas moralizantes, mas de mudanças profundas na composição e no funcionamento do aparato público. Quando o Estado passou a ser ocupado de forma mais inclusiva e a responder a uma base social mais ampla, sua lógica interna deixou de servir à extração oligárquica e passou a se orientar cada vez mais em direção ao interesse público.

A escolha de ministros e ministras do STF deve ser tratada como uma decisão do Estado e não como uma mera prerrogativa presidencial que seja negociada em circuitos restritos de poder. A sociedade brasileira tem o direito de conhecer os critérios que fundamentam essas indicações e de exigir que eles incluam, de forma explícita, compromissos com a diversidade racial, de gênero, territorial, social e com diferentes trajetórias profissionais.

Um Supremo Tribunal Federal mais plural não será, portanto, imune a erros, pressões ou decisões controversas. No entanto, uma Corte que se aproxima da diversidade do país tende a aumentar sua legitimidade democrática, a enriquecer sua compreensão sobre os conflitos sociais e a reduzir a distância histórica entre as instituições de justiça e a população que elas devem servir.

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Enfrentar a corrupção estrutural demanda mais do que boas leis, órgãos de controle fortes e a punição de desvios. É também necessário democratizar o Estado internamente. Isso implica abrir os espaços de decisão para pessoas, experiências e trajetórias que historicamente foram excluídas desses ambientes.

Enquanto a estrutura do poder continuar sendo socialmente fechada, a corrupção seguirá como uma parte funcional do sistema. Isso não acontece apenas porque indivíduos cometem desvio de conduta, mas porque instituições com pouca diversidade tendem a reproduzir os interesses, as visões de mundo e as redes de proteção dos grupos que sempre estiveram no centro do poder.

O STF permanece sem refletir a realidade brasileira. E, com cada nova nomeação que perpetua esse padrão, se perde mais uma oportunidade de democratizar os espaços de poder.

Fonte: transparenciainternacional.org.br

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