A esperada reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, programada para esta semana, apresenta tanto oportunidades quanto riscos de desacordos. Essa é a análise do ex-diretor da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, que conversou com a reportagem do WW nesta segunda-feira (4). Azevêdo manifestou uma visão cautelosa sobre os bastidores e a pauta do encontro.
Segundo Azevêdo, já é perceptível uma assimetria na preparação do encontro. Ele observou que a reunião foi acordada apenas na semana anterior à viagem, e que até o momento, foi o governo brasileiro que fez anúncios a respeito, enquanto o lado americano não divulgou informações oficiais.
“Isso, por si só, demonstra uma certa assimetria no tratamento que os dois governos estão dispensando à reunião. Até agora, os EUA parecem relutantes em conceder uma grande visibilidade política ao evento. Isso não acontece à toa; a ‘química’ entre os dois lados terá de superar muitos desafios. Ademais, até onde eu sei, a agenda desse encontro ainda está em fase de negociação”, destacou Azevêdo.

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Importância da pauta discutida
Um dos principais pontos de discussão destacados por Azevêdo é o combate ao crime organizado transnacional. Existe interesse mútuo em lidar com organizações criminosas que operam além das fronteiras, como os grupos PCC e Comando Vermelho. No entanto, as partes têm visões opostas sobre a maneira como esse assunto deve ser tratado:
“O Brasil deseja um tratamento político e chegou a mencionar um memorando de entendimento. Já os Estados Unidos preferem um enfoque mais técnico e, se possível, uma abordagem unidirecional, na qual o Brasil fornece informações, mas sem a necessidade de reciprocidade”, explicou o ex-diretor.
O segundo tema relevante é o comércio. Azevêdo elucidou que o Brasil pode argumentar que, enquanto os Estados Unidos duplicaram seu saldo comercial com o país, a China já responde por mais de 30% das importações brasileiras, enquanto a participação dos EUA é inferior a 10%.
“Vocês estão nos empurrando para os braços da China. É essa a intenção?”, exemplificou, refletindo o tipo de argumento que o Brasil pode apresentar. O ex-diretor também ressaltou que as atuais isenções tarifárias não resultaram de negociações, mas foram decisões unilaterais dos EUA, que não queriam prejudicar suas empresas.
Azevêdo também mencionou um terceiro tema: a exploração de terras raras. Ele assinalou que, apesar das oportunidades de entendimento, o Brasil enfrenta dificuldades em se alinhar à iniciativa americana com o G7 e outros parceiros, dado que tal ação poderia dar a impressão de um alinhamento “anti-China”.
“O Brasil não pode se permitir entrar nessa disputa com a China”, defendeu Azevêdo, lembrando que o país possui um interesse significativo em desenvolver sua mineração e o processamento de minerais críticos em seu território.
O ex-diretor conclui que, independentemente do resultado da reunião, o encontro representa uma oportunidade política favorável para Lula. “Se houver um acordo, será uma vitória significativa; uma atuação digna de estadista ao negociar com Trump. Se não der certo e houver conflitos, isso também pode ser visto como positivo”, argumentou.
Para Azevêdo, no contexto eleitoral, Lula poderá novamente levantar a bandeira do nacionalismo e da soberania, um tema que já lhe trouxe bons resultados no passado. Ele finalizou afirmando que, neste momento, é complicado prever o desfecho do encontro.
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Fonte: cnnbrasil.com.br


