
Há quase três décadas, as emissoras de televisão ligadas ao meio acadêmico desempenham uma função essencial como elo entre o conhecimento científico e cultural produzido nas instituições de ensino e a sociedade em geral. Contudo, este ecossistema de comunicação pública atravessa atualmente um período de transição desafiador, confrontando barreiras estruturais que colocam em risco a sua presença e capilaridade nos moldes tradicionais de transmissão e distribuição de conteúdo.
Um dos principais obstáculos recentes surgiu a partir da mudança de postura das empresas operadoras de TV por assinatura. Amparadas historicamente pelas diretrizes da Lei do Cabo, as redes universitárias mantinham presença garantida em canais obrigatórios dentro dessas grades de programação. No entanto, o cenário comercial e regulatório passou por transformações drásticas. De acordo com Malu Mota, diretora-geral do CNU-SP e vice-presidente da Associação Brasileira de Televisão Universitária (ABTU), as companhias de telecomunicações manifestaram desinteresse em continuar carregando esses sinais, criando um impasse sobre onde direcionar e escoar a produção acadêmica.
Diante desse cenário adverso, instituições de ensino como a Universidade Estadual Paulista (Unesp), a Pontifícia Universidade Católica (PUC), a Universidade Zumbi dos Palmares e a Universidade Paulista (Unip) uniram forças para buscar soluções. Desse esforço conjunto nasceu o CNU Play, uma alternativa que, embora traga desafios operacionais, consolida-se como um caminho viável para manter a circulação dos conteúdos, conforme destaca a professora.
Para Malu Mota, o material gerado no interior das universidades configura-se como um ativo de elevado valor social que precisa ultrapassar os muros acadêmicos. A estruturação de plataformas próprias de streaming surge como uma resposta democrática e funciona, simultaneamente, como um preparativo estratégico para a chegada da futura TV 3.0, preservando a essência da vocação extensionista inerente ao ensino superior.
O panorama atual e a fragmentação da comunicação acadêmica
O perfil estatístico da comunicação universitária no Brasil evidencia um quadro de forte fragmentação. Atualmente, cerca de 190 emissoras se autodeclaram como TVs universitárias no país. No entanto, Francisco Machado Filho, presidente da ABTU e diretor da TV Unesp, faz um alerta importante: muitas dessas entidades não possuem, na prática, a natureza institucional e operacional condizente com a função.
Além disso, a forma como o conteúdo chega ao público é profundamente desigual. Todas as emissoras utilizam a plataforma YouTube como ferramenta de alcance, enquanto 65% operam exclusivamente no ambiente da internet. O panorama do cabo também reflete instabilidade: 66 emissoras que integravam grades de TV a cabo encontram-se atualmente em processos de desligamento, e apenas 29 operam no sinal de TV aberta.
Outro ponto de grande apreensão para o setor é a iminência da transição para a TV 3.0, nova geração da televisão digital brasileira que promete unificar a recepção via antena com a conectividade da internet. A preocupação central reside no risco de exclusão das instituições de menor porte ou de caráter estadual e comunitário. Segundo Machado Filho, a integração a esse novo padrão tecnológico vem se viabilizando para o grupo de universidades federais, mas deixa à margem as demais instituições de ensino, lacuna que exige um debate urgente e inclusivo na sociedade.
Busca por alternativas e mobilização política em Brasília
Como forma de mitigar o risco de marginalização tecnológica e ampliar o alcance das produções, a ABTU desenvolveu o ABTUPlay, uma ferramenta colaborativa de compartilhamento que já agrega mais de 600 vídeos e presta atendimento a cerca de 30 emissoras legislativas. Paralelamente, o conteúdo universitário busca inserção em canais nacionais transmitidos por satélite (DTH) e na plataforma EduPlay, gerida pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP).
Especialistas da área reforçam que a sobrevivência e a relevância dessas emissoras dependem fundamentalmente de um reconhecimento político e social mais amplo acerca da relevância da comunicação pública. Machado Filho enfatiza que, na ausência de políticas públicas consistentes e perenes, as TVs acadêmicas correm o risco de sucumbir à exclusão por escala econômica, tornando-se excessivamente dependentes de corporações privadas de tecnologia e enfrentando dificuldades crônicas na aquisição de infraestrutura e equipamentos modernos.
Para reverter esse quadro, o setor intensifica articulações com o objetivo de levar demandas concretas a Brasília, encabeçando a organização do 2º Fórum de Comunicação Pública. A pauta central do movimento inclui assegurar a inserção justa da comunicação pública nas plataformas de streaming, garantir amparo legal e tecnológico para as TVs universitárias dentro do padrão da TV 3.0 e estimular aportes financeiros voltados à inovação, infraestrutura e redes de distribuição de conteúdo (CDN). Para os dirigentes, assegurar que o cidadão tenha acesso pleno à produção científica e cultural das universidades é, antes de tudo, uma questão fundamental para a qualidade e o fortalecimento da democracia no país.
Fonte:: convergenciadigital.com.br



