Um levantamento recente conduzido pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio em parceria com o Ministério Público Federal revelou que ferramentas de inteligência artificial continuam a fazer recomendações diretas de candidatos aos eleitores brasileiros. A quinta rodada do projeto, realizada em agosto, apontou que 20% das respostas geradas por essas tecnologias continham algum tipo de indicação de voto.
As sugestões diretas foram identificadas em plataformas específicas durante os testes. A ferramenta Perplexity liderou o índice com 89% de sugestões nas respostas analisadas. Em seguida aparecem a Meta AI, com 23%, o Grok, com 14%, e o DeepSeek, com 11%. Por outro lado, tecnologias amplamente utilizadas como ChatGPT, Claude e Gemini não apresentaram nenhuma indicação de voto nas consultas examinadas pelos pesquisadores.
Monitoramento das regras eleitorais
A iniciativa acompanha de perto se as principais plataformas do mercado estão cumprindo as diretrizes estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral. A norma em vigor proíbe expressamente que os sistemas de inteligência artificial criem rankings de políticos, sugiram ou priorizem candidaturas, emitam opiniões sobre disputas ou realizem qualquer tipo de favorecimento político-eleitoral.
A coleta dos dados ocorreu entre os dias 17 e 21 de agosto, utilizando comandos específicos que simulavam dúvidas comuns de eleitores sobre o pleito. O material serve de base para a atuação do Grupo de Trabalho sobre Desinformação na Internet, Interferência Cibernética na Democracia e Influência nas Eleições, órgão vinculado ao Ministério Público Federal.
Com base nas informações levantadas, os procuradores realizam reuniões periódicas com os desenvolvedores das tecnologias para corrigir falhas e assegurar o respeito à legislação brasileira. Segundo a procuradora regional da República Neide Cardoso de Oliveira, que coordena o grupo, o diálogo tem gerado resultados práticos. Ela destacou que, após encontros com representantes da Google, a incidência de recomendações na ferramenta Gemini foi totalmente eliminada.
Ranqueamento e visibilidade desigual
O estudo também avaliou a presença de listas e hierarquias nas respostas fornecidas aos usuários. De acordo com os dados, as plataformas apresentaram algum tipo de ranqueamento de candidatos em 86% dos casos analisados no período. Ferramentas como Perplexity, Claude e Meta AI aplicaram algum critério de ordenação ou destaque em todas as interações avaliadas.
A pesquisa considera ranqueamento não apenas listas ordenadas por critérios diferentes da ordem alfabética, mas também recursos visuais como negrito, omissão intencional de nomes ou qualquer destaque que beneficie um concorrente específico em detrimento de outros.
Na corrida pela Presidência da República, o levantamento mostrou que apenas quatro nomes aparecem de forma unânime em todas as sete ferramentas testadas. Essa fragmentação significa que eleitores que utilizam sistemas diferentes acabam recebendo recortes completamente distintos da realidade eleitoral. O problema se repete nos estados: dos 197 registros oficiais para governos estaduais no Tribunal Superior Eleitoral, apenas 20 foram citados por todas as tecnologias avaliadas.
Fontes de informação e confiabilidade
Outro aspecto examinado pelo projeto foi a integridade dos dados utilizados pelas inteligências artificiais para formular suas respostas. Os pesquisadores avaliaram se os sistemas buscaram informações em fontes oficiais, como órgãos eleitorais e sites governamentais, ou se recorreram a fontes informacionais, a exemplo de veículos de imprensa, enciclopédias colaborativas e redes sociais.
Os resultados mostram que as fontes informacionais aparecem em 91% das respostas sobre disputas presidenciais e estaduais, enquanto as fontes oficiais respondem por 40%. A imprensa tradicional é a referência mais utilizada, presente em 76% dos casos, seguida por enciclopédias colaborativas com 34%. Já os portais oficiais da Justiça Eleitoral aparecem em 30% das respostas.
Em relação à precisão dos dados, o levantamento registrou taxas baixas de alucinações, termo usado quando a inteligência artificial inventa informações e as apresenta como verdades. O problema ocorreu em apenas 1% das respostas. Contudo, dados desatualizados apareceram em 12% dos casos, sendo o erro mais comum a indicação de figuras públicas que sequer registraram candidatura como se fossem concorrentes oficiais.
As etapas anteriores da pesquisa consolidaram dados coletados nos meses de março, maio, junho e julho. Uma nova rodada de análises já está em andamento e deve ter seus resultados divulgados antes do primeiro turno das eleições. Todos os relatórios detalhados podem ser consultados diretamente no site oficial do projeto em https://www.bocadeia.com.br/relatorios.
Fonte:: convergenciadigital.com.br


