Os gabinetes dos ministros Cristiano Zanin e Gilmar Mendes confirmaram que receberam da Polícia Federal (PF) a íntegra do material extraído do aparelho celular apreendido do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que era proprietário do antigo Banco Master. A transferência dos dados ocorreu após os magistrados enviarem ofícios exigindo o repasse das informações.
A ordem para a entrega do conteúdo foi intensificada depois que o ministro André Mendonça, responsável pela relatoria do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), adotou resistência inicial na liberação dos documentos. No sábado anterior, Mendonça havia argumentado que disponibilizar o material de forma integral representaria risco para investigações em andamento e serviria apenas para tumultuar a análise do plenário sobre o envolvimento entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes.
A requisição formal para o acesso total aos dados foi feita na semana passada por Cristiano Zanin e Gilmar Mendes. Os ministros sustentaram que necessitavam examinar todas as mensagens enviadas por Daniel Vorcaro, indo além do recorte seletivo produzido inicialmente pelos investigadores da corporação, antes de tomarem parte na votação do colegiado.
No mesmo sentido, o ministro Alexandre de Moraes cobrou que o vice-presidente da Corte determinasse o envio do espelhamento do dispositivo para todos os integrantes do tribunal. Segundo Moraes, não competiria ao relator definir quais documentos estariam acessíveis aos demais membros para a realização do julgamento.
Em sua defesa, André Mendonça pontuou que o acesso integral ao material não seria estritamente necessário para a sessão, reforçando que os pares contavam exatamente com o mesmo conjunto probatório franqueado aos demais participantes da deliberação.
Sessão no plenário
O plenário do STF agendou para esta terça-feira a análise de um relatório elaborado pela Polícia Federal. O documento aponta que Daniel Vorcaro enviou 52 mensagens a Alexandre de Moraes — com quem aparentava manter proximidade — no período entre 2023 e 17 de novembro de 2025, data em que o ex-banqueiro acabou preso de forma preventiva.
Conforme o levantamento da investigação, em algumas das mensagens Vorcaro supostamente encaminhou para apreciação do ministro um contrato no valor de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. Em outro trecho do material, o executivo buscava apurar detalhes sobre uma operação policial iminente que culminaria em sua prisão.
Até o momento, o ministro Alexandre de Moraes tem negado veementemente qualquer contato com Vorcaro. A Polícia Federal destacou em seus relatórios que as respostas enviadas pelo interlocutor ao ex-banqueiro não puderam ser recuperadas durante a perícia técnica.
A Suprema Corte ainda não definiu formalmente qual será o rito adotado para o julgamento, tampouco se Moraes e Mendonça estarão presentes na sessão plenária. A Constituição Federal e o regimento interno da instituição estabelecem a competência exclusiva do plenário para processar e julgar ministros do tribunal, mas deixam lacunas sobre os procedimentos práticos a serem seguidos.
Contexto das investigações
Os ministros devem deliberar sobre um requerimento apresentado pela Procuradoria-Geral da República (PGR), que pede a anulação do relatório da Polícia Federal centrado nas conversas atribuídas a Vorcaro e Moraes. O órgão ministerial argumenta que a produção do documento ocorreu de maneira irregular, visto que André Mendonça não comunicou a presidência do STF nem solicitou autorização prévia do plenário antes de autorizar diligências que atingiam um colega de corte.
Ao retirar o sigilo do relatório que mencionava o ministro Alexandre de Moraes, o relator do caso Master optou por submeter diretamente ao plenário a decisão sobre a abertura ou não de uma investigação formal contra o magistrado.
Em resposta à movimentação, Moraes apresentou o que classificou como um relatório de inteligência da corporação, sugerindo que Mendonça estaria direcionando as investigações ligadas à operação Compliance Zero com o objetivo de atingir adversários políticos. Contudo, o arquivo anexado não continha assinatura ou timbre oficial da instituição policial, além de trazer na capa um aviso explícito de que o conteúdo tratava-se de mera conjectura desprovida de valor probatório.
Diante disso, Alexandre de Moraes solicitou a abertura de uma investigação independente contra André Mendonça sob as suspeitas de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. A presidência do STF pautou a análise deste pedido específico para o dia 23 de setembro.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br


